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Flavia Azevedo
Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 13:00
Minha disposição para “dar notas”, que já era pouca, finalmente acabou. Hoje em dia, eu só avalio motorista de Uber e olhe lá. O resto que lute sem a minha opinião. Se gostei, volto. Se não, eu sumo sem dar explicação. Pois é, cheguei ao limite nesse acúmulo de exigências - avaliar, justificar, explicar - que transformaram o ato de consumir em uma espécie de expediente informal. >
No começo, era bom saber que, do outro lado, as empresas estavam preocupadas com o que achei da minha “experiência”. Porém, muito mais do que apenas um necessário e suficiente “canal aberto com o cliente”, elas agora identificam um potencial funcionário (não remunerado) em cada consumidor. Saudades da “caixa de sugestões”, do “livro de reclamações” e de outros instrumentos do tempo em que não éramos coagidos a dar as malditas “estrelinhas” para senhor nenhum.>
Nesta semana, duas situações ultrapassaram o limite do ridículo. Na primeira, fiz um pedido pelo iFood e, antes mesmo de o entregador ligar a moto, o restaurante entrou em contato pelo chat com uma intimidade de quem passou a infância comigo no Recôncavo. Ele me implorava por uma avaliação antes de enviar a comida. Que, por fim, estava horrível. Era um poke e só não digo o nome do estabelecimento porque a vida tá difícil pra todo mundo. >
Na segunda situação, eu estava cancelando minha matrícula numa rede de academias e o rapaz da portaria disse que “eu preciso de um motivo”. Sim, o processo só seria concluído se eu fizesse essa “confissão”. Ou seja, o que poderia ser apenas um “há algo que a gente possa fazer para lhe manter aqui?” vira, outra vez, uma invasão de intimidade e coação. Na verdade, eu ia cancelar só para mudar de plano, mas agora já estou procurando outra academia. Também não digo nomes, pois não sou vingativa.>
Como você pode perceber nos dois exemplos acima - e, provavelmente, na sua própria vida – a busca por “respostas” virou uma coisa obsessiva. Isso não é só minha opinião. Fui pesquisar e descobri que o nome técnico do que sinto é “fadiga de pesquisa”. O incômodo é tão grave e coletivo que resultou em um fenômeno descrito como relutância em participar de avaliações. Existem dois tipos: a “fadiga de solicitação”, quando o cliente ignora o convite por ter sido perguntado vezes demais, e a “fadiga de preenchimento”, quando você até começa a responder, mas desiste no meio porque as perguntas não acabam nunca.>
Ou seja, o que começou como escuta virou uma dependência desproporcional das empresas e gerou o efeito contrário ao da intenção inicial. O que foi pensado para melhorar a experiência do cliente se transformou numa engrenagem tão obsessiva que, no fim, afasta. As empresas deveriam entender que, assim como nas relações entre indivíduos, ninguém suporta quem vive fazendo perguntas e pescando opiniões que o outro não está disposto a dar. A gente cansa. Além de nome, o fenômeno tem números. Uma pesquisa realizada pelo Linkedin revelou que 52% das pessoas simplesmente deixaram de responder pesquisas de satisfação. >
Se você é dono de empresa, talvez esteja se perguntando: “então resolve como?”. Observe que não é tão complicado assim. O Brasil é um dos líderes globais na adoção de tecnologias capazes de resolver isso sem nos incomodar. Segundo dados encomendados pelo Google, 54% dos brasileiros já utilizam inteligência artificial generativa, superando a média global de 48%. Isso significa que a IA pode analisar milhares de interações reais (conversas, chats e chamados) com empresas para identificar padrões de insatisfação sem forçar o cliente a distribuir estrelinhas ou preencher formulários insuportáveis. Fora isso, existe uma solução ainda mais simples que é prestar um bom serviço. Segundo um relatório da Forrester, 73% dos consumidores afirmam que uma prestação de serviço eficiente é suficiente para garantir fidelidade.>
Outra coisa que afasta das “avaliações” é que nós, consumidores, já aprendemos que raramente adianta reclamar apenas para a empresa. Para realmente resolver problemas, muitas vezes é preciso expor publicamente (principalmente nas redes sociais) ou recorrer à Justiça. Ou seja, dar atenção às queixas - e resolvê-las - já seria um gesto revolucionário. Empresas com experiência do cliente superior geram receitas de 4% a 8% acima da média do mercado, e a melhoria da experiência do cliente vem da prática, da ação concreta, e não de conversa fiada nem de formulários. Pronto, está tudo desenhado.>
Veja que não sou empresária nem consultora de qualidade. Sou "apenas" uma entre milhões de clientes cansados de trabalhar de graça para empresas que confundiram relacionamento com cobrança e cliente com funcionário. Do vendedor ambulante ao empresário mais milionário, antes todo mundo sabia que se o serviço é bom, a gente volta e se não é, a gente vaza. Agora precisam só se lembrar do que assim sempre foi e sempre será. O resto - estrelinhas, pesquisas e confissões forçadas – não são mais parâmetros e estratégias confiáveis pelo motivo de que a gente não aguenta mais.>
Por @flaviaazevedoalmeida>