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Maiara Baloni
Publicado em 25 de março de 2026 às 18:50
As bases para as eleições de 2026 estão sendo estabelecidas agora por meio de debates sobre regras eleitorais e movimentações partidárias em Brasília. Fora do período de votação, o foco atual de políticos e tribunais é a adaptação a regras que vêm reduzindo o número de partidos no Brasil.
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O avanço gradual da cláusula de barreira e o funcionamento das federações partidárias são os pontos centrais dessa reorganização, que define quais partidos terão acesso a verbas públicas e ao tempo de propaganda no rádio e na TV.
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O custo do Congresso Nacional
O principal desafio para os partidos médios e pequenos em 2026 é a cláusula de barreira, um mecanismo criado para diminuir a fragmentação no Congresso. A regra exige um desempenho mínimo nas urnas: para ter direito ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita, cada partido precisará obter ao menos 2,5% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados, distribuídos em pelo menos um terço dos estados, com um mínimo em cada um deles, ou eleger 13 deputados federais também distribuídos por pelo menos nove estados.
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Atualmente, partidos de médio e pequeno porte correm o risco de não atingir esses índices, como o PRD, Solidariedade, Avante e Novo. Sem esse desempenho, os partidos perdem acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda, reduzindo o financiamento necessário para manter suas estruturas, o que tem motivado conversas sobre fusões definitivas ou a formação de novos blocos para evitar a perda de relevância política.
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Como alternativa para superar essas barreiras, os partidos têm recorrido às federações. Diferentemente das antigas coligações, a federação exige que os partidos envolvidos atuem como uma única bancada, com atuação conjunta no Congresso, durante um período mínimo de quatro anos.
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O cenário das federações mudou recentemente. O Cidadania confirmou o fim de sua parceria com o PSDB após o ciclo eleitoral de 2024, buscando novos caminhos para 2026. Por outro lado, o movimento de concentração ganhou força com o avanço das negociações para a Federação União Progressista, anunciada em abril de 2025, unindo União Brasil e PP. Com cerca de 109 deputados, este bloco passou a figurar entre as maiores forças da Câmara, redesenhando o equilíbrio de poder. Outras federações seguem ativas, como a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e a federação entre PSOL e Rede.
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Existem partidos que, devido ao grande volume de votos e ao tamanho de suas bancadas, não precisam recorrer a federações para garantir acesso a recursos e funcionamento. Siglas como o PL, o PSD, o MDB e o Republicanos já superaram com folga a cláusula de barreira nas eleições recentes e possuem estrutura suficiente para disputar o pleito de 2026 de forma isolada, mantendo maior autonomia nas decisões e no uso dos recursos.
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Além do dinheiro, o tempo de propaganda gratuita é o ativo mais valioso de uma campanha. A distribuição segue a regra da representatividade: 90% do tempo é dividido proporcionalmente ao número de deputados federais de cada partido ou federação, e os 10% restantes são distribuídos entre as siglas com representação na Câmara.
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Isso cria um abismo entre os grandes blocos e os pequenos. Projeções indicam que partidos como PL e PT, além de uma eventual federação entre União Brasil e PP, devem concentrar a maior fatia do tempo de propaganda, deixando apenas alguns segundos para siglas menores. Para o eleitor, isso significa que as vozes desses grandes grupos serão muito mais frequentes no rádio e na TV, o que pode reforçar a polarização e dificultar a entrada de candidatos de partidos isolados no debate nacional.
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Um dos pontos centrais do debate é o montante destinado ao Fundo Eleitoral. Para 2026, o valor do fundo ainda depende da definição na Lei Orçamentária Anual, mas estimativas no Congresso giram em torno de R$ 4,9 bilhões. Essa verba é 100% pública e oriunda do Orçamento da União, financiado por tributos federais pagos pelos cidadãos, como o Imposto de Renda e contribuições.
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A concentração desse recurso impressiona. Segundo projeções, partidos como o PL e o PT, além de uma eventual federação entre União Brasil e PP, podem concentrar cerca de metade do fundo. Na prática, para viabilizar esses bilhões, o Poder Legislativo realiza ajustes orçamentários dentro do Orçamento da União para acomodar esse valor, em meio à disputa por recursos entre diferentes áreas.
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Além do financiamento, a Justiça Eleitoral atualizou as normas sobre tecnologia. Para o pleito de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mantém e deve atualizar regras rígidas contra o uso de Inteligência Artificial para criar conteúdos falsos. O uso de montagens (deepfakes) que simulem falas ou situações inexistentes para atacar adversários pode levar a sanções graves, incluindo a cassação do registro da candidatura, a depender da decisão da Justiça Eleitoral, refletindo a preocupação com a integridade das informações que chegam ao cidadão.
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As mudanças nas regras eleitorais tendem a reduzir a competitividade de partidos menores, mas fortalecem grupos mais robustos e financiados. A tendência é que a política brasileira se concentre em grandes blocos, o que torna o debate mais centralizado. Para o eleitor, compreender esse cenário e como recursos públicos do Orçamento da União são destinados ao financiamento político é o primeiro passo para acompanhar as escolhas que definirão o país a partir de 2027.
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