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Campanha da Fraternidade 2026: por que a Igreja escolheu o tema moradia digna?

Com o lema "Ele veio morar entre nós", CNBB reforça que a fé sem obras é morta e rebate críticas sobre viés ideológico na Quaresma

Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 06:00

Favela no Brasil
Favela no Brasil Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Depois do Carnaval, como reza a tradição, vivemos o início da Quaresma, tempo de recolhimento, de revisão de vida. É nesse contexto que começa a Campanha da Fraternidade 2026, com um tema que toca numa das feridas mais visíveis do Brasil: moradia digna. O seu lema é: "Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14).

Quem vive a Igreja Católica sabe que a Campanha da Fraternidade não nasce de modismo nem muito menos de cálculo eleitoral. Ela nasce da realidade concreta. Nasce da visita à comunidade onde falta saneamento, da família que divide um único cômodo, da mãe que reza pedindo apenas um teto seguro para criar os filhos. Quando a CNBB escolhe falar de moradia, não está fazendo discurso ideológico. Está olhando para aquilo que dói na vida do povo e que a Palavra nos convida a refletir, considerando o contexto de mais de 6 milhões de famílias sem moradia adequada no Brasil, como aponta o texto base da CF.

A Bíblia é clara e direta: “a fé sem obras é morta”. Não adianta rezar e virar o rosto para quem mora em área de risco. Não adianta participar da missa aos domingos e fingir que a desigualdade não existe. A alma precisa de oração, mas também precisa de compromisso. O Evangelho nunca foi fuga da realidade; sempre foi mergulho, interpretação. Jesus não passou ao largo do sofrimento humano. Ele se aproximou e se colocou em próprio sofrimento para nos salvar.

É por isso que causa estranheza quando surgem ataques à CNBB em períodos eleitorais, como se a Igreja estivesse escolhendo lado político. A Igreja escolhe pessoas. Escolhe os que sofrem, os que estão à margem, os que precisam ser lembrados. E isso independe de direita, esquerda ou centro. Moradia é dignidade humana, não bandeira partidária. É a segunda vez que a CNBB aborda o tema, sendo a primeira em 1993 com o tema "Onde moras?".

A Campanha da Fraternidade, em seus 60 anos, provoca. E deve provocar. Porque fé confortável demais costuma ser fé distante demais do Evangelho. A Quaresma convida à conversão, e conversão também significa assumir responsabilidade social. Não se trata de transformar a fé em militância, mas de impedir que ela vire indiferença.

Não adianta viver apartado dos problemas sociais como se a pobreza fosse paisagem e a exclusão fosse apenas número em relatório. A fé cristã exige coerência entre o que se professa e o que se pratica. A casa é mais do que tijolo e telha. É dignidade, é proteção, é ponto de partida para uma vida mais justa.

A Campanha da Fraternidade começa religiosa, iniciada em 1962 por Dom Eugênio Sales, e referendada para todo País em 1963 pelo Concílio Vaticano II, e termina profundamente humana. Foi balizada por Dom Helder Câmara, um dos maiores líderes católicos que essa terra já viu. Talvez seja justamente isso que mais incomode setores mais conservadores: devemos lembrar que rezar e agir caminham juntos, assim como Jesus Cristo fez.

Victor Pinto é jornalista e advogado, apresentador da Band Bahia e da rádio Excelsior e membro da Devoção do Senhor do Bonfim.