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Ana Beatriz Sousa
Publicado em 23 de março de 2026 às 05:00
Se você é baiano, principalmente se cresceu na periferia, sabe que o arrocha vai muito além de um gênero musical. O ritmo está nos bares da esquina, nas caixas de som improvisadas, nas festas de família que atravessam a madrugada e mais do que música, ele é presença constante, quase um personagem do cotidiano e que, para muitos, virou memória afetiva. Porque o arrocha também é isso, aquele fundo musical de domingo à noite, quando a gente sabe que o final de semana está acabando. >
E, se tem algo que o baiano sabe fazer com maestria é transformar sua vivência em arte. E quando essa arte ganha o alcance nacional, o impacto é inegável. No próximo dia 30 de março, o Brasil inteiro vai ter a chance de conhecer de perto a essência, o sotaque e a alma da periferia de Salvador com a exibição do telefilme "Sonho de Arrocha". A obra, uma coprodução da Gran Maître Filmes com a TV Bahia, fará sua grande estreia na cobiçada grade da TV Globo, na Tela Quente e no Cine BBB, levando para milhões de lares a som inconfundível de um dos ritmos mais amados da Bahia (e do país).>
Em entrevista exclusiva ao CORREIO, a equipe por trás das câmeras compartilhou os detalhes dessa produção. De um lado, a visão apaixonada do roteirista e diretor Marcos Alexandre; do outro, a doçura e o talento precoce de Gui Nery, de apenas 11 anos, que dá vida ao sonhador protagonista Biel.>
Atores de 'Sonho de Arrocha'
Nas telinhas, Biel promete ser uma puro carisma, ele dará vida à um garoto de 12 anos, extrovertido e determinado a se tornar o maior cantor de arrocha do Brasil. A inspiração para esse sonho vem do sangue. Seu avô, Humberto, já falecido, foi um cantor de seresta nos anos 80 e 90 que tentou migrar para o arrocha, mas teve sua trajetória interrompida tragicamente na estrada.>
Na vida real, o ator que empresta rosto e voz a Biel confessa ser bem diferente de seu personagem. “A única coisa que é diferente é aquele lado extrovertido. Ele apronta demais. Eu não sou assim não, sou quietinho", revela Gui Nery, arrancando risos ao falar de sua personalidade. Segundo ele, o que os une é o foco: “De Biel pra Gui, acho que só foi a determinação mesmo de fazer o trabalho”.>
A entrada de Gui no projeto foi um evento à parte. Fã assumido de Nadson o Ferinha, o jovem ator lembra com exatidão do momento em que soube que faria o papel principal. “Quando eu passei, eu comecei a pular com a minha mãe. Fiquei muito feliz pra treinar. E pra gravar, mais feliz ainda!”, relembra. O nervosismo, comum para um menino que faria seu primeiro filme, passou longe. “Foi natural”, garante o garoto, que já carrega no peito o sonho de seguir uma carreira dupla: “Gravar e atuar”.>
A escolha do arrocha como fio condutor não foi por acaso. Para Marcos Alexandre, o filme é um resgate de suas próprias memórias afetivas. Nascido em Salvador e criado na região metropolitana, em Vila de Abrantes, o diretor cresceu sendo embalado pelos grandes nomes do gênero.>
"Eu escutava muito, em qualquer tipo de rua, Silvano Salles, Tayrone Cigano, Nara Costa, Asas Livres... Eu passei muito tempo na escola dançando e gastando com arrocha. Isso foi muito o meu lugar de fato", explica o diretor.>
Marcos sentia falta de ver essa representatividade nas telas. "Um dos ritmos mais escutados do Brasil atualmente, mas aqui na Bahia eu nunca vi nenhuma obra audiovisual que tivesse esse apelo sobre o arrocha, especialmente centrada na família negra, preta e periférica da cidade. A gente consegue contemplar diversas faltas no cenário audiovisual baiano e brasileiro".>
Filme 'Sonho de Arrocha'
Para construir a trama, o roteiro precisou equilibrar esse universo musical com a realidade de muitas famílias locais. Biel é criado pela avó, dona Joaquina, enquanto a mãe, Rosa, passa o dia trabalhando fora. Joaquina carrega os traumas das dificuldades financeiras e das frustrações que viveu ao lado do marido artista. Por isso, tenta a todo custo podar as asas artísticas do neto, buscando garantir a ele um futuro estável e seguro.>
É nesse embate geracional que surge a grande sacada do filme, o 'Arrocha Gospel'. "Desde o começo, eu queria trazer o arrocha, mas pensei em como trazer para uma família evangélica e estabelecer essa relação. A gente compreende o desejo dele de querer ser cantor, mas também compreende o desejo dela de querer uma vida mais estável", pontua Marcos.>
Um dos maiores orgulhos da produção é a sua autenticidade. Gravado ao longo de 17 diárias no mês de outubro de 2025, tendo como locações exclusivas a Cidade Baixa, a Ribeira e os arredores da Igreja do Bonfim, em Salvador, "Sonho de Arrocha" é uma produção 100% baiana.>
"Toda a equipe de produção é daqui da Bahia. O elenco também. A gente não precisou de nenhum tipo de forçação para estabelecer algum sotaque ou alguma coisa que não seja nossa", celebra Marcos. O roteiro, escrito em parceria com Marcelo Lima, foi pensado para soar o mais natural possível. "Quando os atores vieram, a gente adaptou para que ficasse o mais próximo da nossa realidade. Levar Salvador, a Ribeira, a Cidade Baixa para a rede nacional, no horário nobre, é uma experiência única".>
Para garantir que a música fosse, de fato, a alma do projeto, o trabalho de direção musical de Bruno Zambelli foi minucioso. O arrocha está presente desde a primeira cena, quando Biel foge para tentar assistir a um show na praça. A trilha sonora original foi composta por talentos locais, como Bruno Zambelli, Yan Cloud e Rafa Chagas que assinam a faixa "Vencedor".>
Bastidores de 'Sonho de Arrocha'
"A gente queria criar uma música híbrida, que fosse cantada na igreja evangélica, mas que também conseguíssemos escutar no nosso dia a dia. Uma música que remetesse ao início do arrocha, lá nos anos 2000", revela o diretor, nos dando um spoiler: "Uma música de um desses quatro (Silvano, Tayrone, Nara ou Asas Livres) vai estar no filme. Descubra!".>
Mesmo em meio à alegria e grandiosidade de gravar um filme para a Globo, a rotina de um menino de 11 anos não para e Gui precisou conciliar as gravações com as aulas escolares. “A coordenadora ajudou muito. As aulas que eu faltava, ela guardava as provas. Teve um dia que eu fiz duas provas [de vez], mas passei de ano!”, comemora o ator mirim. Seus colegas de classe, incrédulos, já questionavam se era mesmo ele na televisão. “Eles falaram: 'Será que é você mesmo, será que é IA ou dublê?'. Eu falei que iam ter a dúvida comprovada”.>
A sintonia no set foi fundamental para as cenas mais exigentes. Marcos elogia o desempenho do protagonista em um momento específico e de alta carga emocional. "Foi a cena que eu não esperava, e ele tirou de letra. Ele me surpreendeu muito. Fomos para um lugar que não faz parte do perfil de Gui, e ele confiou em mim".>
O telefilme chega em um momento importante para a produção audiovisual baiana, impulsionada por novos editais e leis de fomento, como a Bahia Filmes. "É muito importante a gente conseguir construir esse lugar de qualidade, respeitando e representando a Bahia da maneira que acreditamos", reflete Marcos. "A gente está num lugar onde muitas produções estão acontecendo. É importante mostrar que, olha, aqui é Bahia, a gente faz desse jeito, a gente tem o nosso molho".>
Após a exibição no Cine BBB e na Tela Quente, o filme ficará disponível no Globoplay. Sobre o que esperar do final, Gui Nery, bem-humorado, contou um pedacinho do que vai acontecer na trama: "Eu vou virar cantor na igreja. Só isso", diz, rindo. >