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Agência Correio
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 19:00
O código de barras é, talvez, o símbolo mais reconhecível do planeta, superando marcas gigantes como Nike ou Coca-Cola. Por cinco décadas, esse padrão de linhas verticais operou como a "encanagem" do capitalismo moderno, permitindo que supermercados e megastores como o Walmart gerassem uma eficiência sem precedentes. Antes dele, cada item precisava de uma etiqueta de preço manual, um processo lento e sujeito a erros constantes. >
A invenção não apenas acelerou as filas do caixa, mas mudou a psicologia do consumidor. Com a facilidade de rastrear estoques, as lojas passaram a oferecer uma variedade infinita de produtos, criando o hábito da escolha compulsiva que define o comprador atual. O que antes era uma ferramenta técnica tornou-se a arquitetura invisível que sustenta desde a logística da Amazon até a organização da sua despensa.>
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A confiabilidade dessa tecnologia cinquentenária é quase milagrosa para os padrões atuais. Enquanto aplicativos modernos travam com frequência, o código de barras mantém uma taxa de erro de apenas um em 400 mil escaneamentos. É uma tecnologia "perfeita" que, por ser tão onipresente, acabou se tornando transparente aos olhos do público, sendo notada apenas agora, quando sua substituição se torna iminente.>
Diferente das inovações atuais, onde figuras como Elon Musk centralizam a riqueza e o protagonismo, o código de barras nasceu de um esforço coletivo e quase desinteressado. Na década de 1970, executivos do setor de mercearia decidiram que nenhuma empresa deveria lucrar individualmente com a patente do código. Eles o colocaram em domínio público, garantindo que o padrão fosse universal e acessível a todos os fabricantes.>
Essa decisão permitiu que a tecnologia se espalhasse de forma viral pelo mundo, mas impediu que seus criadores se tornassem nomes conhecidos ou bilionários. Eles lucraram vendendo os scanners, não o código em si. É um modelo de negócios que parece "comicamente pós-guerra", refletindo uma era da América onde a padronização da indústria era vista como um bem comum, e não apenas um ativo de propriedade intelectual.>
A escolha do design final também guarda curiosidades inusitadas, como o fato de terem preferido o retângulo da IBM a um modelo circular da RCA que parecia um alvo. O debate sobre qual formato usar foi tão intenso que, para aliviar a tensão, o comitê de decisão chegou a fazer uma pausa para assistir a um filme adulto em um cinema de São Francisco. Pouco depois, o design "zebra" que conhecemos hoje foi finalmente oficializado.>
A partir de 2027, o tradicional código de barras começará a dar lugar aos QR Codes em uma transição coordenada pela GS1 (a "governança" global dos códigos). Diferente das 12 barras numéricas que dizem apenas o preço, o QR Code pode carregar mais de 4 mil caracteres. Isso permite que a loja saiba não apenas o que é o produto, mas quando ele foi fabricado, se contém alérgenos específicos e até aplicar descontos automáticos no caixa para itens próximos da validade.>
Embora prometa conveniência, a mudança esconde um lado mais invasivo para a privacidade. Enquanto o código de barras é passivo, o QR Code é uma via de mão dupla que facilita o "data harvesting" (colheita de dados). Ao escanear um código com seu celular, as empresas podem rastrear seu comportamento físico na loja, enviando cupons de desconto imediatos se você desistir de uma compra, transformando o ato de comprar em um monitoramento digital constante.>
O futuro aponta para uma obsolescência ainda mais rápida, com câmeras de inteligência artificial da Amazon que identificam produtos sem necessidade de qualquer código. O código de barras, que resistiu por 50 anos como um pilar de estabilidade, será substituído por tecnologias que se renovam a cada ciclo de iPhone. No fim, sentiremos nostalgia do simples "bipe" que, por décadas, foi o som reconfortante do comércio global.>