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Alan Pinheiro
Publicado em 3 de março de 2026 às 06:00
O avanço do uso de gramados sintéticos em estádios e centros de treinamento tem intensificado o debate no futebol brasileiro e internacional. Clubes defendem a praticidade e a redução de custos, enquanto atletas e profissionais de saúde alertam para possíveis prejuízos ao desempenho e, principalmente, para o aumento do risco de lesões. >
O tema ganhou novo capítulo após o Flamengo protocolar junto à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) uma sugestão de melhoria para os gramados do país até 2029, com a proposta de transição gradativa dos campos sintéticos para os naturais ou híbridos. >
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A discussão não é apenas estética ou financeira. Estudos apontam que o tipo de piso interfere diretamente na biomecânica do atleta. No gramado sintético, a superfície tende a ser mais rígida e uniforme, o que altera a forma como o pé interage com o solo durante corridas, arrancadas e mudanças bruscas de direção, movimentos constantes no futebol profissional>
Segundo o ortopedista Leandro Cardoso Guimarães de Aguiar, especialista em joelho do Centro Integrado da Coluna Vertebral (CICV), o impacto acumulado é um dos principais pontos de atenção. “O gramado sintético oferece menor capacidade de absorção de impacto em comparação ao natural. Com isso, a sobrecarga é transferida para as articulações, especialmente joelhos, tornozelos e quadris, aumentando o risco de lesões por esforço repetitivo”, explica.>
Outro fator relevante é o atrito. Em campos sintéticos, a aderência excessiva entre a chuteira e o piso pode dificultar o giro natural do corpo. “Quando o pé ‘trava’ no solo e o corpo continua o movimento, há um aumento significativo das forças de torção sobre o joelho, o que pode favorecer lesões ligamentares, como as do ligamento cruzado anterior”, destaca Leandro Aguiar>
Além dos efeitos a curto prazo, o uso contínuo desse tipo de superfície também levanta preocupações a longo prazo. “Atletas que treinam e jogam com frequência em gramados sintéticos podem desenvolver dores crônicas, desgaste precoce da cartilagem e tendinopatias. Não é algo que aparece de um dia para o outro, mas que se constrói ao longo da carreira”, alerta o especialista.>
Já os gramados naturais, quando bem cuidados, tendem a oferecer melhor absorção de impacto e permitir movimentos mais próximos do padrão fisiológico do corpo humano. Os campos híbridos, que combinam grama natural com fibras sintéticas, surgem como uma alternativa intermediária, buscando maior durabilidade sem abrir mão de características biomecânicas mais favoráveis ao atleta>
Para o ortopedista, a iniciativa de discutir melhorias nos gramados é um passo importante. “Pensar na padronização e na qualidade dos campos é pensar na saúde do jogador. A transição para gramados naturais ou híbridos pode representar menos lesões, maior longevidade esportiva e melhor desempenho em campo”, conclui Aguiar.>