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Maysa Polcri
Publicado em 17 de novembro de 2025 às 06:00
Os ingredientes estavam todos lá: lavagem de escadarias, trios elétricos, sincretismo religioso e o profano tão logo o sol se escondia. O cenário? A orla da Pituba, que chegou a ter uma das festas de largo mais fervorosas de Salvador. Assim como o bairro se distanciou de suas raízes bucólicas, o clima festivo perdeu força, a partir da década de 1990. >
Se o Rio Vermelho parece ficar pequeno para as celebrações do 2 de Fevereiro, essa sensação era compartilhada por quem lotava a Praça Nossa Senhora da Luz para celebrar a padroeira de mesmo nome, durante boa parte do século XX. A festa popular acontecia enquanto o bairro mudava suas características. Aos poucos, deixou de ser ponto de veraneio para se tornar o morada preferida dos 'novos ricos' da cidade. >
Confira como era a Pituba antigamente, por Arquivo CORREIO
O bairro era formado por uma grande área de mata com produção agrícola e pouca inserção no contexto urbano da cidade de Salvador, até o fim do século XIX. "A Pituba era uma fazenda, com plantações e criações de animais. O bairro sempre teve um caráter bucólico", afirma o historiador e professor Murilo Mello. >
Por volta de 1920, Manoel Dias da Silva, dono das terras, começou a projetar o que viria a ser o novo bairro de Salvador. Não por acaso, a principal avenida do bairro foi batizada em sua homenagem. >
"Especialmente a partir dos anos 1930, a antiga fazenda passa a ser pautada como um caminho de expansão urbana de Salvador. Houve o desmembramento das fazendas para outras áreas privadas e o planejamento do bairro", contextualiza o historiador Rafael Dantas. Ele ressalta que a Pituba preserva as características de localidade planejada, com os traçados retos das ruas e as ruas com nomes de estados brasileiros. >
É na década de 1960 que a urbanização do bairro ganha força - inicialmente com pessoas de outros estados que vêm morar na capital baiana com a intensificação do segmento industrial. "A Pituba vai contribuir para desafogar a cidade que estava começando a ficar cada vez mais popular, com a vinda das pessoas do interior e de outros estados. Passa a ser um lugar que vai trazer o crescimento da cidade para o setor norte", detalha Murilo Mello. >
A Pituba passou a ter a sua principal expressão cultural ameaçada à medida em que ganhou contornos cada vez mais urbanos. Em 1996, uma reportagem do CORREIO mostrou que baianas, donos de barracas e alguns dos frequentadores se queixavam que, nos últimos anos, a festa vinha perdendo o brilho e a participação popular. Houve até quem comparasse a festa, antes pujante, a um velório. >
No dia 25 de janeiro daquele ano, só foram permitidas 16 barracas ao longo da praça, após um acordo entre moradores e prefeitura. O único trio elétrico que apareceu, sequer ligou as caixas de som. Com o tempo, a continuidade da festa ficou cada vez mais difícil. Murilo Mello diz que essa não é uma realidade apenas da Pituba. >
"A decadência se dá porque Salvador vai mudar. A cidade entra cada vez mais dentro dos moldes desse mundo contemporâneo, de horário, de tempo, de produção. Esse ritmo faz com que o encanto se perca, e os espaços coletivos passam a ser ocupados de outra forma", pontua. O historiador pondera que a Lavagem do Bonfim e o 2 de Fevereiro, no Rio Vermelho, são algumas das poucas celebrações que ainda mantêm o apelo popular. Aproveitemos, então, enquanto há tempo. >