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Donaldson Gomes
Publicado em 2 de março de 2026 às 05:00
Menos de um mês após a captura do ex-presidente venezuelano, Nicolas Maduro, o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, voltou a lançar os seus dados no tabuleiro da geopolítica mundial. Desta vez, o alvo era o aiatolá Ali Khamenei, que foi morto em um bombardeio no sábado (28). Até a noite de ontem (1º), a operação, que reuniu forças dos EUA e de Israel, deixou 201 mortos e 747 feridos, segundo a imprensa iraniana com base em informações da rede humanitária Crescente Vermelho. >
Uma série de grandes explosões foram registradas na capital Teerã e em diversas outras cidades iranianas. Em resposta, o Irã disparou mísseis contra Israel e atacou bases americanas espalhadas por todo o Oriente Médio. Ontem, o Exército dos EUA informou que três militares foram mortos em um dos ataques iranianos. O governo afirmou ainda que os danos às bases militares dos EUA no Oriente Médio, após a retaliação iraniana, foram “mínimos”.>
Conflito no Oriente Médio - Estados Unidos X Irã
Segundo a rede de TV NBC, os militares americanos alvejados estavam lotados no Kuwait. “Vários outros sofreram ferimentos leves por estilhaços e concussões e estão em processo de retorno ao serviço. As principais operações de combate continuam e nossos esforços de resposta estão em andamento”, publicou a central de comando americana no X. “A situação é instável, portanto, por respeito às famílias, não divulgaremos informações adicionais, incluindo a identidade de nossos guerreiros falecidos, até 24 horas após a notificação dos familiares”, disse a emissora.>
Quem era Ali Khamenei
O Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de petróleo do mundo, foi fechado por motivos de segurança, informou a agência estatal iraniana Tasnim. Em pronunciamento, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou que a ofensiva contra o Irã matou comandantes da Guarda Revolucionária e altos funcionários ligados ao programa nuclear iraniano. Segundo ele, “milhares de alvos” serão atacados nos próximos dias.>
No mesmo pronunciamento, Netanyahu fez um apelo direto à população do Irã para que se levante contra o regime e vá às ruas para protestar. “Não percam a chance, esta é uma oportunidade que surge uma vez por geração”, afirmou. Em inglês, Netanyahu acrescentou: “A ajuda chegou”, em referência a uma publicação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em janeiro, o norte-americano afirmou que estava enviando “ajuda” a manifestantes que protestavam contra Khamenei.>
Além do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, chefes militares do país também morreram durante os bombardeios, segundo a mídia estatal iraniana. De acordo com a TV estatal e agências oficiais, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Abdolrahim Mousavi, e o ministro da Defesa, Aziz Nasirzadeh, foram mortos em um ataque aéreo enquanto participavam de uma reunião do Conselho de Defesa, no sábado.>
As autoridades persas também relataram a morte do comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour, e de Ali Shamkhani, ligado ao Conselho de Defesa. O ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad foi morto nos ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel ao Irã, no sábado. Ahmadinejad era um linha-dura conhecido por liderar uma repressão sangrenta contra manifestantes após sua controversa reeleição, em 2009.>
Donald Trump
Donald Trump afirmou ontem, em entrevista à "Fox News", que 48 integrantes da cúpula iraniana morreram durante as ofensivas. “Está avançando rapidamente. Ninguém consegue acreditar no sucesso que estamos tendo, 48 líderes foram eliminados de uma só vez. E está avançando rapidamente”, disse ele. Mais cedo, o presidente americano disse à revista “The Atlantic” que a nova liderança iraniana quer retomar as negociações e que ele concordou em dialogar.>
“Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então vou falar com eles. Deveriam ter feito isso antes. Deveriam ter oferecido algo que era muito prático e fácil de fazer antes. Esperaram demais”, disse Trump. Apesar disso, o republicano não quis detalhar quando deve ocorrer a conversa com representantes iranianos. Ao ser questionado se o contato aconteceria hoje ou amanhã, respondeu: “Não posso dizer isso”.>
Segundo a publicação, Trump afirmou ainda que parte dos negociadores iranianos envolvidos nas tratativas recentes morreu nos ataques. “A maioria dessas pessoas se foi. Algumas das pessoas com quem estávamos lidando se foram, porque aquilo foi um grande golpe”, declarou.>
O presidente americano ainda disse acreditar na possibilidade de uma mudança interna no Irã.>
Segundo Trump, a ação militar não beneficia apenas os Estados Unidos. “Estamos fazendo nosso trabalho não apenas por nós, mas pelo mundo inteiro. E tudo está adiantado em relação ao cronograma previsto”, afirmou à CNBC. “As coisas estão evoluindo de uma maneira muito positiva neste momento”.>
As entrevistas foram concedidas antes de as Forças Armadas americanas anunciarem as primeiras baixas americanas no conflito.>
Em publicação na rede Truth Social, Trump declarou que nove embarcações da Marinha iraniana foram destruídas. “Acabo de ser informado de que destruímos e afundamos 9 navios da Marinha iraniana, alguns deles relativamente grandes e importantes”, escreveu. “Vamos atrás do restante, em breve estarão repousando no fundo do mar também! Em outro ataque, destruímos em grande parte o quartel-general naval deles”.>
Poucas horas após a morte de Khamenei, o aiatolá Alireza Arafi foi eleito o líder supremo interino do Irã ontem, informaram agências estatais iranianas. Arafi ficará à frente do país e foi eleito o chefe do Conselho interino de liderança iraniano, com a tarefa de comandar o processo de escolha de um novo líder supremo. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que um novo líder supremo será escolhido em "um ou dois dias".>
Arafi foi escolhido como líder supremo interino horas após um grupo com três autoridades de alto escalão terem sido nomeadas para liderar interinamente o Irã. O grupo incluía o presidente Masoud Pezeshkian, o Chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni-Ejei, e um dos juristas do Conselho dos Guardiões.>
Abbas Araqchi afirmou ao chanceler de Omã, Badr Albusaidi, que Teerã está aberta a “esforços sérios” para reduzir a tensão após os ataques israelenses e norte-americanos. A conversa ocorreu por telefone e foi relatada em comunicado divulgado neste domingo pelo Ministério das Relações Exteriores de Omã.>
Segundo Albusaidi, ele defendeu um cessar-fogo e a retomada do diálogo “de maneira que atenda às demandas legítimas de todas as partes”. Omã tem atuado como mediador nas negociações nucleares entre EUA e Irã, buscando aproximar os dois países em meio às sucessivas crises diplomáticas.>
Transporte global>
A maior interrupção no transporte aéreo global desde o início da pandemia de covid-19 continuou no domingo (1º), com milhares de voos afetados e importantes centros de transporte no Oriente Médio, incluindo Dubai e Doha, fechados em resposta à escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Israel e Irã trocaram novos ataques ontem, depois que Teerã atingiu o Aeroporto Internacional de Dubai — o mais movimentado do mundo em tráfego internacional — e o principal aeroporto do Kuwait durante seus ataques retaliatórios no dia anterior.>
Irã, Iraque, Israel, Síria, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos anunciaram no sábado o fechamento, ao menos parcial, de seus espaços aéreos após os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, o que interrompeu abruptamente o tráfego aéreo civil sobre o Oriente Médio.>
Entre as companhias aéreas que cancelaram voos estão Emirates, Etihad, Air France, British Airways, Air India, Turkish Airlines e Lufthansa.>
O site de rastreamento de voos FlightAware informou que mais de 6.700 voos foram atrasados e 1.900 cancelados em todo o mundo até as 10h GMT de domingo, além dos milhares registrados no dia anterior.>
O Irã fechou rapidamente seu espaço aéreo assim que os ataques começaram, “até segunda ordem”, disse o porta-voz da Organização de Aviação Civil do Irã, citado pela agência de notícias Tasnim. Israel também fechou seu espaço aéreo para voos civis, anunciou a ministra dos Transportes, Miri Regev.>
A autoridade de aviação civil do Catar informou que fechou temporariamente o espaço aéreo do país. O Iraque também fechou seu espaço aéreo, informou a mídia estatal, assim como os Emirados Árabes Unidos anunciaram o fechamento “parcial e temporário” de seu espaço aéreo e de diversos outros países da região.>
Navegação >
O tráfego de navios comerciais pelo Estreito de Ormuz, uma via marítima estreita na fronteira sul do Irã que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é uma das artérias marítimas mais vitais do mundo, desacelerou drasticamente desde sábado, segundo dados marítimos analisados pelo jornal New York Times.>
Desde ontem, dois navios foram atacados no local. Além disso, ao menos três das maiores companhias de navegação do mundo, a MSC, a Maersk e a Hapag-Lloyd, suspenderam o trânsito de embarcações pelo estreito. A plataforma de rastreamento de navios MarineTraffic registrou uma queda de 70% no tráfego marítimo.>
Repercussão>
As manifestações internacionais foram tímidas em relação aos ataque ao Irã. O governo brasileiro prestou solidariedade a países impactados por ataques retaliatórios do Irã e pediu a interrupção de ações militares na região do Golfo. Em notana noite de sábado (28), o Ministério das Relações Exteriores afirmou que a escalada representa uma grave ameaça à paz.>
Diferentemente do comunicado divulgado na manhã de sábado, quando condenou ataques feitos por Israel e Estados Unidos contra alvos iranianos, desta vez o Itamaraty não citou diretamente os dois países.>
A primeira nota levou a críticas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. Em uma publicação nas redes sociais, o senador classificou a postura do governo Lula como “inaceitável”.>
Lideranças europeias adotaram a cautela ao comentar o conflito. “Agora não é o momento de dar lições aos nossos parceiros e aliados, apesar de todas as dúvidas, compartilhamos muitos dos seus objetivos, embora não sejamos capazes de os alcançar nós mesmos”, disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, em entrevista coletiva neste domingo em Berlim.>
Na véspera, o E3, grupo formado por Alemanha, Reino Unido e França voltado à diplomacia com o Irã, declarou ter alertado o regime persa a encerrar definitivamente o programa nuclear — acusado de ter finalidades militares.>