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Matheus Marques
Publicado em 24 de março de 2026 às 10:16
O projeto de um Sul Global coeso, que ganhou corpo com a ampliação do BRICS em 2024, vive em 2026 seu momento de maior vulnerabilidade. A escalada bélica no Levante, marcada por ofensivas diretas entre grandes potências e ameaças a corredores logísticos, empurrou o bloco para um labirinto diplomático. O grande desafio da cúpula agora é impedir que as tensões militares entre seus novos integrantes transformem uma aliança de cooperação econômica em um palanque de impasses insolúveis.
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A instabilidade nas relações entre os líderes do grupo joga luz sobre os interesses de Donald Trump. O presidente norte-americano, crítico contumaz do bloco, vê no enfraquecimento do bloco uma oportunidade estratégica.
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Com o acirramento das hostilidades e a volatilidade do mercado energético, o clima nas reuniões de cúpula se deteriorou. Para Marta Fernández, diretora do BRICS Policy Center e professora da PUC-Rio, o conflito atua como um catalisador de divergências que já estavam mapeadas. Em entrevista ao jornal O Globo, a especialista destacou que o cenário atual "pode acabar servindo aos objetivos políticos do presidente americano", já que a guerra amplia as rachaduras internas do grupo.
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Os efeitos práticos dessa falta de sintonia já se tornam evidentes, encontros ministeriais de alto escalão foram cancelados por ausência de uma arquitetura de segurança unificada. No Itamaraty, a preocupação é que a pauta bélica ofusque as bandeiras históricas do Brasil, como a reforma do Conselho de Segurança da ONU e a desdolarização das trocas comerciais.
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A tese é clara. O BRICS não possui natureza de aliança militar. Segundo Rubens Duarte, coordenador do Laboratório de Análise Política Mundial e professor da ECEME, o grupo nasceu para ser um foro de concertação política e reforma do multilateralismo, focado em fortalecer a inserção internacional de seus membros e nunca foi formatado para atuar no campo da defesa mútua.
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Para além das mesas de negociação, o que preocupa os anfitriões do bloco é o barril de petróleo rompendo a barreira dos US$ 100. A possibilidade de um travamento no Estreito de Ormuz, corredor estratégico para a energia global, impõe um pragmatismo imediato, todos precisam de rotas marítimas seguras.
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Entretanto, a unidade para por aí. Enquanto o Irã cobra uma resposta agressiva contra as incursões do Ocidente, monarquias como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos adotam cautela. Esses membros operam sob uma lógica de cautela, tentando equilibrar a autonomia dentro do BRICS com a dependência histórica de seus acordos de segurança com Washington.
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