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Rodrigo Daniel Silva
Publicado em 16 de fevereiro de 2026 às 19:24
Amigos, o velho Milton Nascimento já ensinava que todo artista tem de ir aonde o povo está. Na política, porém, muitos de seus protagonistas só vão aonde o povo está quando o calendário eleitoral aperta e os votos passam a fazer falta. Não é mera coincidência que a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja cada vez mais constante na Bahia justamente no momento em que sua reprovação supera a aprovação e a maioria dos brasileiros se declara contrária a um novo mandato do petista. >
Entre 23 de janeiro e 14 de fevereiro, um intervalo de apenas 22 dias, Lula esteve na Bahia três vezes. A passagem mais recente ocorreu no último sábado (14), quando o presidente foi ao circuito do Campo Grande, no Carnaval de Salvador, e acompanhou a apresentação do BaianaSystem. A primeira visita foi para um evento do MST. Duas semanas depois, retornou ao estado para participar do aniversário do PT.>
Rodrigo Daniel Silva
Os números ajudam a entender o contexto dessa movimentação. De acordo com levantamento do prestigiado instituto Quaest, divulgado na semana passada, 49% dos entrevistados desaprovam a gestão Lula, enquanto 45% aprovam o governo. Para agravar o cenário do presidente, 57% dos brasileiros se declaram contrários à sua reeleição, um dado que acende o sinal de alerta no Palácio do Planalto.>
O desgaste político alcança até a região Nordeste, principal base eleitoral de Lula desde o início deste século. Na região, a aprovação caiu de 67% em janeiro para 61% em fevereiro, enquanto a reprovação subiu de 30% para 33%. Isso indica uma erosão gradual do apoio até mesmo onde o presidente sempre foi forte.>
Na Bahia, ainda não há pesquisas recentes que meçam com precisão a popularidade do presidente, mas sinais políticos começam a surgir. Nota publicada pelo site Platô, que tem entre seus quadros o jornalista Guilherme Amado, informou, no início do ano, que petistas já admitem nos bastidores o risco de Lula perder até 1 milhão de votos no estado em comparação com a eleição anterior.>
Uma declaração do ex-ministro José Dirceu, considerado um dos estrategistas históricos do PT, reforçou essa apreensão. Durante evento do partido na Bahia, ele afirmou esperar que o estado entregue 5 milhões de votos a Lula. O número chamou atenção: em 2022, o presidente obteve 5,8 milhões de votos no primeiro turno e 6 milhões no segundo. A conta é inevitável: estaria Dirceu projetando, ainda que de forma implícita, uma queda no desempenho eleitoral do petista em seu principal reduto?>
O risco de um baixo desempenho de Lula na Bahia estaria diretamente ligado ao desgaste do governador Jerônimo Rodrigues. Em entrevista ao CORREIO, em março de 2024, o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, já alertava que a avaliação negativa do chefe do Executivo baiano contaminava, em alguma medida, a imagem do presidente no estado. Em política, a transferência de prestígio funciona, mas a de desgaste também.>
Segundo o secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro, esta teria sido a primeira vez que Lula participou do Carnaval da Bahia. Não tenho como afirmar com absoluta certeza, mas, nos meus 12 anos de cobertura jornalística, não me recordo de outra ocasião em que o petista tenha ido ao circuito para acompanhar a festa ao lado do público. Lula já esteve no estado durante o período momesco, é verdade, mas para descansar na praia de Inema, na área militar da Base Naval de Aratu. Longe da multidão e dos trios elétricos.>
O gesto reforça a leitura de que a presença não foi apenas simbólica. Trata-se de movimento político em uma das maiores vitrines populares do país. O Carnaval é a segunda maior festa da Bahia, atrás apenas do São João. E não foi um movimento isolado. Lula também marcou presença no Carnaval de Pernambuco, onde, segundo a imprensa local, não participava do Galo da Madrugada há 25 anos. Não custa recordar que Pernambuco é o segundo maior colégio eleitoral do Nordeste.>
Não está claro se essa maratona de agendas de Lula será suficiente para assegurar uma vitória nas urnas em outubro. Ao que tudo indica, o desafio que ele enfrenta é mais profundo e estrutural. Sempre que observo o presidente hoje, lembro-me de Winston Churchill na década de 1940. Às vésperas da eleição de 1945, ele teria confidenciado a seu médico que sentia estar próximo do fim da carreira. “Não tenho mensagem nenhuma”, disse ele. A frase ecoa no presente: Lula parece já não ter uma mensagem clara a oferecer ao povo brasileiro.>
E, como diz o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson, “eleições são vencidas não com base nas realizações de um político, mas no que se promete para o futuro”.>