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Polícia bate recorde de participação em tiroteios em Salvador e RMS

Segundo o Instituto Fogo Cruzado, 44% das ocorrências de disparos de arma de fogo ocorreram durante ações e operações policiais em 2025

  • Foto do(a) author(a) Millena Marques
  • Millena Marques

Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 06:30

Bala perdida
Bala perdida Crédito: Arisson Marinho/CORREIO

Em 2025, Salvador e Região Metropolitana registraram 1.505 ocorrências de disparos de arma de fogo. Embora o número represente uma queda de 16% em comparação com 2024, quando foram contabilizados 1.795 tiroteios, um outro dado acende um alerta para o cenário de segurança pública no estado: 44% dos registros de 2025 ocorreram durante ações e operações policiais, totalizando 662 casos, o maior índice da série histórica. No ano anterior, essa proporção foi de 38%, somando 681 ocorrências. Os dados são do Relatório Anual do Instituto Fogo Cruzado, lançado nesta quinta-feira (26).

“A Bahia insiste na letalidade policial como política de Estado. Não se trata de excessos pontuais, mas de uma estratégia que aposta no confronto permanente, mesmo diante de evidências de que esse modelo amplia a violência e não reduz o poder das organizações criminosas”, afirma Tailane Muniz, coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado na Bahia.

O número é resultado de uma estratégia controversa de combate das forças de segurança. De acordo com o especialista em segurança pública Sandro Cabral, professor de Estratégia e Gestão Pública do Insper e licenciado da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o poder bélico das organizações criminosas contribui para o confronto. “Se você tem do outro lado as organizações criminosas cada vez mais bem armadas, fruto dessa organização crescente e dessa facilidade de acesso a armas — muitas delas vêm do mercado legalizado por meio de CACs, por exemplo —, elas, estando mais bem armadas, vão ensejar uma resposta mais contundente das forças policiais”, diz.

Tiroteio: moradores vivem momentos de tensão no Costa Azul por Bruno Wendel/CORREIO

A tendência, segundo Cabral, é que os confrontos sejam mais violentos, ainda que se tenha uma queda no número de tiroteios. “Muitas vezes é uma reação das organizações policiais ao mero fortalecimento das organizações criminosas. O conflito armado é a última instância de resolução”, destaca.

Ao todo, 1.525 pessoas foram baleadas em Salvador e na RMS em 2025: 1.212 morreram e 313 ficaram feridas. Entre os baleados, 605 foram atingidos durante ações e operações policiais, o que indica que 40% das vítimas estavam nesse contexto. Em 2024, foram registradas 1.725 pessoas baleadas, das quais 1.380 morreram e 345 ficaram feridas. Naquele ano, 630 vítimas foram atingidas em ações policiais, representando 36% do total.

“A Bahia insiste na letalidade policial como política de Estado. Não se trata de excessos pontuais, mas de uma estratégia que aposta no confronto permanente, mesmo diante de evidências de que esse modelo amplia a violência e não reduz o poder das organizações criminosas”, afirma Tailane Muniz, coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado na Bahia.

Crianças e adolescentes voltaram a ser impactados de forma significativa pela violência armada em 2025. Ao todo, 64 adolescentes foram baleados em Salvador e na Região Metropolitana, número 21% superior ao registrado no ano anterior. Desse total, 27% foram atingidos durante ações e operações policiais. Ao longo do ano, também foram contabilizados cinco casos de crianças baleadas.

A violência armada igualmente comprometeu o acesso à educação. Em 2025, 252 escolas de Salvador foram afetadas por tiroteios em seu entorno. Entre as ocorrências registradas em um raio de até 300 metros das unidades de ensino, no período das 6h às 22h, 67% aconteceram durante ações policiais. A recorrência de confrontos nas proximidades das escolas interfere na rotina escolar e expõe estudantes, familiares e profissionais da educação a situações constantes de risco.

A concentração geográfica desses episódios evidencia desigualdades históricas. Bairros de Salvador com população majoritariamente negra, como Fazenda Coutos, Rio Sena, Moradas da Lagoa, Pero Vaz, Calabetão, Lobato e Chapada do Rio Vermelho, concentram 5% dos tiroteios próximos a escolas. Em contraste, bairros com população majoritariamente branca, como Itaigara, Graça, Caminho das Árvores, Canela, Pituba, Barra e Patamares, registram somente 0,3% dessas ocorrências.

“Quando a polícia atua como principal agente dos tiroteios no entorno de escolas, o Estado passa a figurar como um ator direto no cenário de insegurança. É uma política com características sociogeográficas bem definidas. Há um impacto avassalador sobre o futuro de crianças e adolescentes, sobretudo negros e pobres, que têm suas rotinas interrompidas pela violência armada”, destaca Tailane Muniz.

Para Sandro, o número de confrontos pode ser reduzido com mais ações de inteligência e maior colaboração entre as polícias. “É algo que a Secretaria de Segurança daqui da Bahia tem tentado sinalizar, mas é uma cultura que demora muito tempo para ser implementada. O sinal das lideranças na busca dessa integração é importante, porque muitos dos confrontos podem ser resolvidos sem tiro. Você pode prender as pessoas, os criminosos, com ações de inteligência também. Mas volto a dizer: diante do fortalecimento dessas organizações criminosas, a resposta acaba sendo à altura”, finaliza.

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Bahia Salvador