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Nauan Sacramento
Publicado em 18 de março de 2026 às 22:03
O Oscar já passou, mas Salvador deu luz a uma nova leva de atores digna da estatueta. O Teatro 2 de Julho, na Federação, tornou-se, na noite desta quarta-feira (18), o centro de um movimento que une arte e inclusão social. A mostra "Nosso Olhar" celebra a conclusão de um curso formativo de sete meses, que resultou na estreia de dois curtas-metragens criados, dirigidos e protagonizados por 40 jovens com Síndrome de Down (T21). A iniciativa, realizada pela DMTZ Filmes, buscou transferir o controle da narrativa para os próprios jovens, permitindo que suas perspectivas de mundo chegassem à tela sem filtros externos. >
O projeto não se limitou à atuação. Os participantes vivenciaram um mergulho técnico em áreas como roteiro, direção de fotografia, iluminação, maquiagem e produção. Segundo o CEO da DMTZ Filmes e diretor do projeto, Diego Metzker, a ideia surgiu após a produtora ser premiada por filmes publicitários sobre o tema.>
Sob a luz das telonas, jovens com Síndrome de Down estreiam como cineastas em mostra inédita em Salvador
"Após isso, pensamos em como poderíamos retribuir para essa sociedade aquilo que conquistamos e, então, vimos que ao invés de falar deles, poderíamos dar voz a eles", explica Metzker. "Os jovens participaram pegando na câmera, lidando com a luz. Uma frase que me motiva é: ‘quando existe oportunidade, existe um novo olhar’. Os curtas falam de escola, namoro e super-heróis; eles precisam falar sobre si mesmos", acrescenta.>
Para a coordenadora do projeto, Ana Luisa Fernandez, o maior desafio, e conquista, foi estabelecer um laço de confiança com as famílias. "Foi um trabalho enriquecedor. Cada um tem suas diferenças, mas foi um crescimento de todos nós, especialmente ao ver os pais confiarem seus filhos ao nosso processo criativo", afirma.>
A mostra apresenta dois curtas que utilizam o gênero fantástico e poético para discutir a realidade da pessoa com deficiência. O primeiro deles, "A Praia dos Monstros", narra a história de um estudante e o despertar de uma paixão escolar. Na trama, ao fugirem para uma praia, os personagens encontram monstros que simbolizam os obstáculos e medos da juventude. "O medo dá lugar à curiosidade e à celebração coletiva. Enfrentar esses desafios é condição para viver plenamente", diz a sinopse.>
O segundo curta, "A Passagem Secreta", foca na transição para a vida adulta. Na história, jovens universitários e super-heróis descobrem um portal para a universidade, uma metáfora para o acesso ao Ensino Superior e ao mercado de trabalho, espaços ainda marcados pela exclusão de pessoas com T21.>
Para os participantes e seus familiares, o projeto funcionou como um divisor de águas na percepção de capacidade e autonomia. Helena, uma das atrizes de "A Passagem Secreta", descreveu a emoção da primeira experiência artística: "Foi muito bom para mim, minha primeira vez atuando. Estou me sentindo muito feliz de verdade".>
O sentimento é compartilhado pelos pais, que observaram mudanças significativas em seus filhos. Para Tainá Reis, mãe de Vitor, outro integrante do projeto, o curso deu uma pretensão de carreira para o jovem. "Hoje, ele se sente um verdadeiro ator. Consegue enfrentar medos, saindo da zona de conforto e tendo mais autonomia e coragem de dizer sim", revela.>
Sheila Cunha, mãe de Ernesto, cita uma melhora que vai além das telonas, mas também na alma: "Trouxe uma elevação na autoestima e uma conexão melhor com a comunidade. Há um autorreconhecimento maior no lugar de um jovem com T21".>
A mobilização para o projeto ocorreu de forma orgânica entre grupos de pais em Salvador. Mariana Sá, mãe de Helena, destaca que a divulgação em redes de apoio foi fundamental. "Achei relevante pelo contato com outras pessoas com T21 da mesma idade. É importante estarmos em contato com pessoas como nós para trocarmos experiências e fortalecermos os vínculos", pontua. Adriano, pai de Helena, não esconde a importância do projeto: "É bom saber que pessoas trabalham para que quem tem necessidades especiais tenham inclusão real".>
A mostra "Nosso Olhar", voltada para convidados, encerra-se com a premissa de que a inclusão não deve ser vista como uma concessão, mas como o reconhecimento legítimo de talentos que aguardam apenas a oportunidade de ocupar o centro da cena>