Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Terreiro de candomblé é vandalizado com pichações de “Jesus” e “Assassinos” em Salvador

Templo religioso em Cajazeiras XI é ligado à mais antiga família africana que chegou ao Brasil

  • Foto do(a) author(a) Larissa Almeida
  • Larissa Almeida

Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 05:00

Terreiro teve a fachada vandalizada na manhã de sábado (17); polícia busca autores Crédito: Sora Maia/CORREIO

Um terreiro de candomblé pertencente à tradição da família africana mais antiga a chegar ao Brasil foi alvo de vandalismo e intolerância religiosa na madrugada do último sábado (17). Registros de fotos e vídeos que circulam nas redes sociais mostram que a fachada do espaço sagrado, que funciona há 33 anos no bairro de Cajazeiras XI, foi pichada com os dizeres “Assassinos” e “Jesus”, escritos com tinta vermelha. Além das ofensas, a ação criminosa causou prejuízo material ao templo religioso.

Segundo o sacerdote Tata Mutá Imê, a casa Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza nunca havia lidado com uma situação semelhante. Desde que lidera o templo, ele conta que sempre viveu rodeado de respeito, especialmente por conta das obras sociais que realiza na comunidade. Dessa forma, foi uma surpresa quando soube do vandalismo, por volta das 7h da manhã de sábado.

Terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza é alvo de ataques religiosos por Sora Maia/CORREIO

“Uma filha de santo que havia acabado de chegar me perguntou se eu havia visto a pichação na entrada do terreiro. Eu imaginei que fosse outra coisa, mas ela disse que era algo absurdo. Foi aí que chamei um filho de santo e fui até o portão, me deparando com 'Assassinos' na parede onde fica o letreiro com o nome da casa e 'Jesus' no portão de entrada de veículos. O portãozinho de entrada de pedestre estava todo pintado de vermelho, com muitos respingos. Foi terrível. Uma coisa absurda, um desrespeito total”, destacou.

Passado o choque, a primeira providência de Tata Mutá foi ir até a delegacia de Cajazeiras, onde foi encaminhado à Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin). Lá, ele e o filho de santo prestaram depoimento. Agora, ambos aguardam as buscas por câmeras de segurança nas imediações do terreiro, que podem auxiliar na identificação do autor do crime.

Enquanto espera, Tata afirma que o sentimento é de indignação. “Eu me sinto invadido, desrespeitado pelo povo de Jesus. É um absurdo, irrita ver o seu território sagrado sendo invadido por pessoas que dizem ser de Deus. Eles picharam a campainha, a caixa de correio, os portões, as paredes. Foi uma destruição. Ou seja, para além do prejuízo emocional e religioso, houve um prejuízo material”, disse.

Mobilização

A circulação das imagens do terreiro vandalizado gerou revolta em entidades religiosas e da sociedade civil. Tata Konmannanjy, presidente da Associação Cultural Bantu (ACBantu), que representa as nações Congo Angola, frisou que o ocorrido reforça a invisibilidade dos povos de terreiro perante o Estado.

“É muito preocupante, porque o cidadão ou grupo que fez isso cometeu dois crimes: o de intolerância religiosa e o de invasão de território. Esse último pesa tanto quanto o primeiro, e é possível enquadrar esse caso como invasão porque houve entrada na fronteira do território ao pichar a fachada. Por isso, tem que saber quem foi o autor do crime, para poder puni-lo. Eu vou a Brasília fazer um ofício e delatar isso ao Conselho Nacional”, afirmou.

Já Ìyá Márcia d'Ògún, uma das coordenadoras do Conselho InterReligioso da Bahia (Conirb) e da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), expressou indignação com a quebra de um direito constitucional, que é a liberdade do culto à fé. “É inadmissível que tenhamos garantido, na nossa Carta Magna, a Constituição Federal, a garantia da liberdade de culto e fé, e ainda enfrentamos situações como essa, que sabemos não se tratar de intolerância, mas sim de racismo religioso”, pontuou.

As lideranças deram ênfase ao desrespeito que a ação criminosa significa para a história do terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, que é da quinta geração da etnia Ambundu, vinda da região leste de Luanda, em Angola, que foi o primeiro grupo étnico a chegar ao Brasil durante o processo de escravização, falando a língua Quimbundo. Foi esse mesmo povo que, ao chegar na Bahia, ficou responsável pela construção da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho.

Leonel Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), pontuou que casos como esses remetem ao racismo religioso, ainda pouco debatido na sociedade. “Em outros terreiros, isso já aconteceu e constatamos que o que motiva esses grupos a praticarem o racismo religioso e a intolerância religiosa é a visão deturpada de que a sacralização de animais, que nada mais é que o abate sacro e o ato de repartir o alimento, é um assassinato”, apontou.

“Essas mesmas pessoas, que cometem esse tipo de crime, são as mesmas que consomem carnes de diversas origens, mas não criticam nem picham, por exemplo, portas de açougues, dos grandes abatedouros, das churrascarias e hamburguerias. Isso mostra como a intolerância religiosa está latente e viva na sociedade, apesar do endurecimento das leis”, ressaltou.

Para ele, a situação requer atenção do Estado, uma vez que a pichação pode ser apenas o primeiro ato de violência que, sem a devida punição aos culpados, é passível de progredir para ações danosas ainda mais graves, conforme histórico de casos registrados pela AFA.

Próximos passos

Em nota, a Polícia Civil disse que a Decrin investiga a ocorrência dos crimes de dano e intolerância religiosa ocorridos no templo religioso, localizado em Cajazeiras XI. Segundo a entidade, investigações e procedimentos práticos estão sendo feitos para esclarecer a autoria dos crimes.

De acordo com Leonel Monteiro, nesta terça-feira (20), a Ronda Religiosa da Polícia Militar se reunirá com a comunidade do terreiro, às 14h, no espaço sagrado. O encontro tem o objetivo de traçar estratégias de defesa e ajudar nas buscas dos responsáveis pelos crimes.

O terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza também vai convocar o povo de santo para uma caminhada durante a “Lavagem da Sujeira do Povo de Jesus”, idealizada por Tata Mutá Imê, que ainda não tem data marcada. A ação pretende reunir a comunidade para lavar, pintar e, consequentemente, apagar das paredes as ofensas que simbolizam o momento mais triste do espaço religioso.

Tags:

Bahia Salvador Cajazeiras Racismo Terreiros Candomblé Intolerância Povo de Santo