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Ciência revela por que a depressão afeta mais mulheres do que homens

Pesquisadores identificam sobreposição genética com obesidade e síndrome metabólica no sexo feminino

  • Foto do(a) author(a) Carol Neves
  • Foto do(a) author(a) Agência Einstein
  • Carol Neves

  • Agência Einstein

Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 09:47

Mulher deprimida
Mulher deprimida Crédito: Shutterstock

A depressão tem base genética relevante, mas esse peso não se distribui da mesma forma entre homens e mulheres. A conclusão vem da maior metanálise já realizada sobre diferenças entre os sexos no Transtorno Depressivo Maior (TDM), que analisou mais de 195 mil casos. O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, e publicado em agosto de 2025 na revista Nature Communications.

Um dos achados inéditos do estudo foi a identificação de uma variante genética associada à depressão apenas em homens. Ela está localizada no cromossomo X, herdado da mãe no momento da concepção. Ainda assim, os autores observaram que as variantes que influenciam o risco de TDM no sexo masculino fazem parte de um conjunto mais amplo presente nas mulheres, que acumulam uma carga genética maior para o transtorno.

A análise mostrou também que, no sexo feminino, há maior sobreposição genética entre a depressão e características como obesidade e síndrome metabólica. Esse padrão não aparece da mesma forma entre os homens, reforçando a ideia de que o TDM envolve vias biológicas parcialmente distintas conforme o sexo.

[Edicase]A depressão infantil pode interferir nos estudos e nos relacionamentos das crianças (Imagem: Iren_Geo | Shutterstock) por Imagem: Iren_Geo | Shutterstock

Para o psiquiatra Ricardo Jonathan Feldman, do Einstein Hospital Israelita, os resultados reforçam o papel da herança genética, mas afastam explicações simplistas. “De forma geral, o estudo confirma que a depressão tem uma influência genética”, afirma. “E é poligênica: vários genes podem contribuir para maior ou menor risco de desenvolver o transtorno.”

Segundo Feldman, a genética, sozinha, não determina quem terá depressão. “As mulheres têm mais depressão, epidemiologicamente falando”, destaca. “São vários motivos: além da questão genética apontada pelo estudo, há fatores ambientais, como violência, traumas, desigualdades sociais e salariais, a sobrecarga cotidiana e influências hormonais.”

Os dados populacionais ajudam a dimensionar essa diferença. Estatísticas globais indicam que as mulheres têm quase o dobro de risco de desenvolver depressão em relação aos homens. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 4% da população mundial viva com o transtorno — aproximadamente 332 milhões de pessoas. Entre adultos, a prevalência é de 5,7%, sendo 4,6% nos homens e 6,9% nas mulheres. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 apontou que 10,2% dos adultos já haviam recebido diagnóstico de depressão, com taxas de 14,7% entre mulheres e 5,1% entre homens.

Essa desigualdade surge cedo. Uma metanálise publicada em 2017 no Psychological Bulletin, com dados de 3,6 milhões de participantes em mais de 90 países, mostrou que a diferença aparece por volta dos 12 anos, atinge o pico na adolescência — quando meninas podem ter até três vezes mais risco de depressão do que meninos — e segue relativamente estável ao longo da vida adulta, independentemente da cultura ou da forma de diagnóstico.

A nova metanálise nasceu justamente de um impasse científico. Estudos anteriores chegavam a conclusões opostas sobre o papel da genética nessas diferenças: alguns apontavam maior influência genética em mulheres, enquanto outros não identificavam distinções relevantes. De acordo com os autores, a divergência se deve principalmente a diferenças metodológicas, como critérios de definição dos casos e caracterização do fenótipo do TDM, o que dificulta comparações diretas.

No total, foram avaliados 130.471 casos em mulheres e 64.805 em homens. Os pesquisadores testaram quatro hipóteses principais: se as variantes genéticas associadas ao TDM atuam com intensidades diferentes entre os sexos; se existem variantes exclusivas de homens ou mulheres; se o cromossomo X tem papel direto no risco; e se variantes associadas a múltiplos traços ajudam a explicar as diferenças observadas.

Os resultados indicam que a maioria das variantes ligadas ao TDM é compartilhada entre homens e mulheres, mas não de maneira idêntica. Foram identificadas 16 variantes significativas em mulheres e oito em homens, incluindo a descoberta inédita no cromossomo X. Mesmo ao considerar o subdiagnóstico masculino — já que homens tendem a relatar menos sintomas e a buscar menos ajuda —, a carga genética de risco permaneceu maior no sexo feminino.

Os autores destacam, contudo, limitações importantes: o desequilíbrio no tamanho das amostras entre homens e mulheres; a inclusão apenas de indivíduos de ancestralidade europeia; possíveis fatores de confusão na análise da interação entre genótipo e sexo; e a ausência de controles de qualidade específicos por sexo, o que pode introduzir vieses técnicos.

Além de mapear diferenças gerais, o estudo trouxe pistas sobre características clínicas mais comuns da depressão em mulheres. As análises mostraram correlações genéticas mais fortes entre o TDM feminino e traços metabólicos, como índice de massa corporal elevado e síndrome metabólica, além de vias relacionadas ao sistema imune e genes associados a condições neurológicas como epilepsia, doença de Huntington e autismo.

Essas conexões ajudam a explicar por que sintomas como ganho de peso, aumento do apetite e hipersonia aparecem com mais frequência nelas. “Esse é o impacto principal do estudo, pois pode oferecer novos alvos de tratamento. Por exemplo, se controlarmos melhor a obesidade e a síndrome metabólica, talvez haja um controle melhor da depressão”, aponta Feldman.

Entre os homens, o padrão clínico tende a ser diferente, com maior prevalência de raiva, agressividade, comportamentos de risco e uso de substâncias. Para os autores, esses contrastes refletem a combinação de fatores biológicos, ambientais e culturais.

A principal mensagem do trabalho é que considerar diferenças genéticas entre os sexos não é apenas uma questão acadêmica. Integrar esses achados à prática clínica pode, no futuro, abrir espaço para diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados para o Transtorno Depressivo Maior, inclusive com terapias direcionadas a vias biológicas específicas de homens e mulheres.

Tags:

Depressão