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Carnaval das canetinhas: com Mounjaro e Wegovy mais acessíveis, efeitos colaterais acendem alerta entre foliões

Profissionais de saúde viram aumento de procura por tratamentos para o verão e a folia, enquanto serviços gastronômicos se adaptam ao novo momento

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 05:00

A combinação com o álcool é uma das maiores preocupações dos médicos e profissionais de saúde.
A combinação com o álcool é uma das maiores preocupações dos médicos e profissionais de saúde. Crédito: Thainá Dayube

Imagine o cenário: multidão, calor, longas horas de caminhada e estômago vazio no meio do circuito. Daí, na hora de comer alguma coisa, o folião - ou foliona - acaba recorrendo a um lanche de cara esquisita, com embutidos que estão fora da geladeira ou de uma temperatura controlada há algum tempo. Para arrematar, cerveja.

A combinação já podia ser complicada para qualquer pessoa, mas ganha contornos mais preocupantes em meio a um cenário novo: o momento em que as ‘canetas emagrecedoras’ nunca foram tão popularizadas. Entre quem faz tratamento orientado por médicos com tirzepatida (Mounjaro) e semaglutida (Ozempic e Wegovy), como deve ser, e quem toma por conta própria, de forma arriscada até com origens suspeitas, o fato é que esse será o primeiro período momesco com tanta gente usando. Ou seja: é o primeiro Carnaval com as canetinhas.

Entre quem faz tratamento orientado por médicos com tirzepatida (Mounjaro) e semaglutida (Ozempic e Wegovy), como deve ser, e quem toma por conta própria, de forma arriscada até com origens suspeitas, o fato é que esse será o primeiro período momesco com tanta gente usando. por Reprodução

"A procura para emagrecer para o Verão e para o Carnaval sempre aconteceu, porque é um período em que as pessoas estão com os corpos mais à mostra, com roupas mais curtas. Agora, a questão é que estamos vivendo realmente um momento em que os medicamentos para emagrecer se tornaram mais populares por vários aspectos, inclusive porque há uma eficácia maior e aumentada, comparada ao que tínhamos 10, 15 anos atrás", aponta a médica endocrinologista Dhianah Santini, professora do Idomed - Instituto de Educação Médica.

Outro ponto de virada foi a chegada do Mounjaro, de fato, às farmácias brasileiras, em maio do ano passado. Ainda que tenha sido aprovado pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) em setembro de 2023, o medicamento só estava disponível por meio de importação no país até então. "Ele é mesmo mais potente que a semaglutida e traz a possibilidade de uso para pessoas que não conseguiam usar a semaglutida. A mídia, em especial as redes sociais, também ajuda a acelerar isso", acrescenta Dhianah.

Foi também a partir de novembro e dezembro que a médica Hannah Andrade Amorim, professora da Afya Salvador, notou um aumento na procura de pacientes pensando em perder peso para o verão. "É uma grande virada e é diferente de outros Carnavais, porque muitos pacientes querem ficar 'slim' (magro). Mas o que me preocupa é o uso indiscriminado da medicação, com pacientes que nem têm o critério formal de uso, sem obesidade ou sobrepeso. A pessoa chega falando que está com dificuldade de perder uns cinco quilinhos, que está treinando, comendo direito, mas que precisa dessa 'ajuda'. Isso, de fato, aconteceu com bastante frequência".

Álcool

Se todos os anos, havia uma preocupação dos pacientes para emagrecer até o Carnaval, o aumento agora foi mais explícito, de acordo com a médica nutróloga Suzana Viana, que tem formação em Gastroenterologia. Por isso, ela já esperava que esse fosse um período de folia diferente nesse aspecto. Ela explica que há uma expectativa de controle do apetite mesmo em períodos de excesso, mas que isso nem sempre é realista.

"Era comum ouvir pedidos como: ‘Quero algo mais forte, porque o Carnaval está chegando’, ‘Vi que fulano perdeu rápido com essa caneta’, ‘Quero segurar o apetite para conseguir aproveitar’, ‘Dá para usar só até o Carnaval?’. Ou seja, muitas pessoas já chegam solicitando a molécula específica, associando essas medicações a resultado rápido, menor fome durante festas, maior ‘controle’ frente à bebida e comida. Isso exige bastante cuidado, porque o tratamento não deveria ser pautado apenas por uma data, e sim por saúde, indicação clínica e acompanhamento", reforça.

Assim, não há nem mesmo uma resposta única quanto à manutenção do tratamento ou interrupção no período momesco. Tudo vai depender do tempo de uso, da dose, do histórico de efeitos colaterais e do perfil clínico de cada paciente, uma vez que o tratamento é contínuo. "De forma geral, não é recomendado iniciar a medicação muito próximo ao Carnaval. Para quem já usa e está bem adaptado, é possível manter. Já quem usa e tem muitos efeitos colaterais, pode ser ajustada a dose ou até fazer uma pausa temporária, mas sempre com orientação do profissional", pondera.

A combinação com o álcool é uma das maiores preocupações dos médicos e profissionais de saúde. Segundo a médica endocrinologista Hanna Andrade Amorim, professora da Afya Salvador, a semaglutida e a tirzepatida atuam de forma a prolongar a sensação de esvaziamento gástrico. Como a pessoa pode passar mais tempo sem comer, as chances de ter enjoos, náuseas e indisposição já são altas. "Como, nesse período, o uso de álcool é muito acentuado, se os pacientes não tomarem cuidado, tendem a sentir mais os efeitos colaterais", diz.

Além disso, passar muito tempo na rua sem se alimentar pode levar a um quadro de hipoglicemia. "Inclusive, essas medicações têm um efeito colateral muito raro, mas significativo, que é a pancreatite. É importante sinalizar para ter cuidado com o uso de álcool", alerta Hanna. Na semana passada, a Anvisa divulgou que investiga seis mortes por pancreatite associada às canetas emagrecedoras no país. Além disso, 225 casos também estão sendo monitorados.

Na última semana, a musa da Colorado do Brás, Izadora Morais, desistiu de desfilar no Carnaval de São Paulo depois de ser internada por complicações associadas ao uso das canetas, incluindo suspeita de embolia e alterações no fígado e no pâncreas. Ela admitiu que passou usou tirzepatida sem acompanhamento médico.

Izadora Morais, musa da Colorado do Brás, desistiu do Carnaval após suspeita de embolia por Reprodução/Instagram

A nutricionista Livia Souza, especialista em emagrecimento, também viu acontecer entre suas pacientes: algumas chegavam lá porque tinham começado a usar as canetas antes do Carnaval. O perfil mais comum era de mulheres com mais de 40 anos.

Mas uma das orientações principais dela é para que os pacientes façam pequenas refeições ao longo do dia, priorizando aqueles alimentos com mais proteínas, muitas vezes negligenciadas nesse período. A água deve ser calculada em torno de 35 ml por quilo do peso e, se a pessoa sentir muito enjoo, pode tomar chás como o de gengibre.

"No dia que for para o Carnaval, antes de sair de casa, o ideal é tentar ter uma refeição equilibrada do ponto de vista nutricional, com combinação de proteínas, carboidratos e micronutrientes. Traduzindo: feijão, arroz, uma porção de carne ou frango, salada e uma fruta para complementar", ensina. Além disso, antes de ir, a pessoa pode também tomar uma dose de proteína (a exemplo do whey protein) para garantir o aporte desse nutriente.

Nas ruas do circuito, se a pessoa não tiver como levar alguma coisa, é preciso buscar as melhores escolhas. "Boas opções são os espetinhos de frango e carne, que são fontes de proteínas, e o queijinho. Outra coisa que sempre falo também é para comer pipoca, porque a gente tem que ter em vista a questão sanitária, que, no Carnaval, fica um pouco negligenciada pela própria logística da festa".

Rotina

Quando recebeu a indicação para o tratamento com Mounjaro de sua endocrinologista, a mercadóloga e jornalista Iasmyn Gordiano, 30 anos, estava com um quadro de pré-diabetes, colesterol alto e quase chegando ao nível 3 de gordura no fígado (esteatose hepática). "Minha saúde estava indo de ruim para péssima", conta ela, que usa a medicação há cerca de um mês.

No entanto, como boa carnavalesca que é, sabia que seria um período de cuidado. "Sou uma pessoa do Carnaval, então ela (a médica) logo falou que eu devia dar uma atenção especial à minha alimentação. Entrei também com nutricionista, para não ficar sem comer na rua".

Para evitar passar mal e conseguir aproveitar mais, ela deixou refeições prontas, sempre com proteínas como frango, e intensificou a hidratação. "Estou indo com a cabeça de que não vou poder beber tanto quanto bebo normalmente, que preciso resguardar meu corpo e ter mais cuidado com o calor. Gosto de estar na pipoca, no meio do povo, mas tomando a medicação, não sei se vou conseguir pular todos os dias", admite ela, que também tem uma rotina de quatro a cinco vezes de musculação por semana, com acompanhamento de um personal trainer.

Se a pessoa não muda a rotina, as chances de recuperar todo o peso com os remédios são altas, como lembra a médica endocrinologista Dhianah Santini, professora do Idomed. "O remédio faz você emagrecer de forma fácil, sem muito esforço, porque você não consegue comer. Pessoas que não foram orientadas e às vezes copiam do amigo, do colega do vizinho, depois vão para a rua comer porcaria, podem sim passar mal".

Além disso, o uso sem as indicações pela farmacêutica também é arriscado. A endocrinologista lembra, inclusive, que não há estudos sobre as canetas em pessoas saudáveis, com peso normal ou baixo.

"Uma pessoa com peso normal que quer perder quatro ou cinco quilos por uma questão visual pode acabar estragando seu metabolismo nesse sentido. Pode chegar à desnutrição, deficiência nutricional e perda de massa muscular. São pessoas com mais chances de ter efeitos colaterais como náusea e vômito. Quando a pessoa não tem indicação e o benefício é mínimo, o risco se sobrepõe", alerta.

Uso indiscriminado das canetas emagrecedoras tem preocupado especialistas por Reprodução

Camarotes e restaurantes se adaptam ao novo momento gastronômico

O uso crescente das canetas emagrecedoras já tem influenciado até uma nova dinâmica no setor gastronômico, em especial nos restaurantes. Por isso, camarotes que investem em serviços de bufê também têm se adaptado para isso. "Já vínhamos percebendo esse movimento com mais clareza no restaurante e, agora, no Carnaval, que é um momento intenso de consumo, ele se torna ainda mais evidente. Não é exatamente que as pessoas deixaram de comer, mas que passaram a comer com mais intenção", diz o chef do Silva Cozinha, Ricardo Silva.

Ele assina o bufê do Viva Bahia, camarote exclusivo para 600 convidados, no Edifício Oceania, diariamente. "Isso nos faz adaptar a proposta, trazendo porções mais equilibradas, com boa qualidade nutricional e que não causem desconforto ao longo do dia ou da noite. A comida precisa dar energia, por isso trazemos um cardápio que valoriza ingredientes frescos e proteínas bem preparadas".

O menu inclui o almoço e, ao longo do dia, bufê fixo de finger foods e pratos práticos, com menos gordura, sabores bem definidos e boas opções de proteínas magras, legumes, grãos e molhos mais suaves. "Trabalhamos com proteínas de alta qualidade, acompanhadas de ingredientes que facilitam a digestão e mantêm a energia ao longo do dia. Nosso foco não é a contagem rígida de macronutrientes, mas o equilíbrio nutricional", acrescenta.

No Camarote Salvador, é possível conferir os alimentos da marca Vida Veg, que está pela quarta vez no espaço e é focada em foliões com restrições alimentares, vegetarianos, veganos ou que buscam alimentos mais naturais. Há produtos sem açúcar, sem glúten e sem lactose, todos feitos com plantas. Os pratos serão preparados pelo chef mineiro Renato Pacheco, que assina um cardápio exclusivo para o evento, incluindo Salada Mediterrânea, Risoto de Queijos Veganos, sanduíches e sobremesas sem açúcar.

"Pensando também nas pessoas que estão em uso das canetas emagrecedoras e outros fármacos voltados para controle de peso e glicemia, desenvolvemos opções 100% vegetais com foco em aporte proteico, leveza e melhor tolerância digestiva", diz a nutricionista da Vida Veg, Fernanda Teixeira, citando o exemplo de um sanduíche proteico 100% vegetal e sem glúten, além da salada mediterrânea. "São escolhas estratégicas para quem busca praticidade, controle alimentar e qualidade nutricional, especialmente em um período intenso como o Carnaval".

Vida Veg terá opções no Camarote Salvador
Vida Veg terá opções no Camarote Salvador Crédito: Divulgação

Para outras refeições durante o período carnavalesco, fora do circuito, há opções entre restaurantes que têm investido em menus com porções menores. Um deles é o Di Liana, que sempre contou com meias porções para se adaptar às famílias com crianças, como conta uma das sócias do restaurante, Lara Allegro, que é neta da fundadora, Liana.

"Mais recentemente, já pensando não apenas num público que come menos, mas que está com alguma restrição ou buscando uma alimentação mais leve, criamos a linha DiliFit, que o cliente pode comer no próprio restaurante ou em casa", explica. Durante o Carnaval, o restaurante vai funcionar com o delivery e com o e-commerce, com entrega também pelo iFood.

Já no La Pasta Gialla, o menu com meia porção já existia em outros estados e, na casa em Salvador, chegou a ser oferecido fora do cardápio, para alguns clientes que pediam. Sócio do La Pasta Gialla Salvador, Marcelo Reis conta que a empresa chegou a retirar do cardápio porque não tinha muita demanda.

Com a tendência das canetas, contudo, e por terem pratos bem servidos, há as opções que poderiam ser divididas, a exemplo das massas secas e recheadas.

"Sem dúvida, esse Carnaval tem um contexto diferente. As canetas emagrecedoras ampliaram uma conversa que já vinha acontecendo, das pessoas comerem bem, mas sem exageros. A nossa expectativa é de um aumento natural na procura por porções menores e pratos mais equilibrados, especialmente nos dias de maior movimento, quando o cliente quer almoçar ou jantar bem e seguir a programação dos blocos e camarotes sem aquela sensação de peso. Durante o Carnaval, essas opções continuam disponíveis, sim. A ideia é justamente oferecer escolha. O cliente pode dividir, experimentar mais de um prato ou optar por algo mais leve sem abrir mão da experiência da casa".