Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Maria Raquel Brito
Publicado em 23 de março de 2026 às 05:00
O número de agentes de segurança baleados em Salvador e Região Metropolitana aumentou em 85% este ano. Foram 13 registros entre 1º de janeiro e 18 de março, quase o dobro do mesmo período de 2025, quando sete profissionais foram atingidos por disparos de arma de fogo. Os dados são de um mapeamento feito pelo Instituto Fogo Cruzado. >
Entre os policiais baleados em 2026, quatro morreram e nove ficaram feridos. Dos 13, nove foram atingidos durante o serviço. Um deles foi o cabo Glauber Rosa, morto após ser baleado na cabeça num confronto no Vale das Pedrinhas, em Salvador, no dia 3 de fevereiro. >
Descrito por colegas como um profissional comprometido e respeitado, Glauber tinha 42 anos, era pai de uma menina de oito anos e um menino de três e, além da atuação na PM, trabalhava também como mecânico.>
Glauber Rosa Santos tinha 42 anos e deixa filhos e esposa
Alaice Gomes, presidente da Associação de Praças da Polícia e Bombeiro Militar da Bahia (APPM-BA), defende que o aumento expressivo no número de agentes baleados não pode ser tratado como algo “normal, eventual ou pontual”. Segundo ela, esse número reflete a necessidade de proteção e respaldo institucional aos policiais e evidencia falhas no sistema. >
“Quando o policial não tem as condições ideais de trabalho, toda a estrutura da segurança pública é impactada. É preciso dizer com clareza: os policiais militares, especialmente as praças que estão na linha de frente, seguem enfrentando uma realidade de exposição extrema sem a devida contrapartida. Não recebem adicional de periculosidade e continuam sendo a única categoria da Secretaria da Segurança Pública a não receber os 125% da Condição Especial de Trabalho. Isso é um ponto grave de desigualdade e desvalorização”, diz.>
O levantamento do Fogo Cruzado mostrou ainda que todos os agentes baleados em serviço pertencem ou pertenciam a unidades especializadas, como Rondesp Central, Rondesp Atlântico e Batalhão Gêmeos.>
Segundo Alaice, a APPM-BA reconhece os avanços na modernização de equipamentos, mas o necessário ainda está distante. Para ela, uma saída para que os agentes tenham melhores condições de trabalho é a ação estruturada e firme, além de um maior investimento do Estado em tecnologia, inteligência policial, equipamentos adequados e treinamento contínuo.>
“Mas não se trata apenas de estrutura operacional. Também é indispensável avançar na valorização profissional e salarial, melhorar as condições de trabalho e garantir suporte psicológico permanente. Um profissional que arrisca a vida todos os dias precisa ter respaldo institucional, reconhecimento e proteção”, afirma.>
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia (SSP-BA) afirmou, em nota, que “nos últimos três anos, cerca de R$ 1,2 bilhão de reais foi investido pelo Governo do Estado em novas estruturas, modernos equipamentos de proteção individual, entre eles viaturas semiblindadas, armamentos e coletes balísticos, além de cursos que qualificam o combate ao crime organizado e atendimento da população”. >
A pasta destacou ainda que continuará investindo na proteção dos “homens e das mulheres que promovem ações ostensivas e investigativas visando a promoção da paz social e manutenção da ordem”.>
De acordo com Dudu Ribeiro, integrante da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, cofundador e diretor-executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas, a quantidade expressiva de agentes vítimas de disparos está relacionada à lógica de guerra exercida pela polícia, que atua com “distribuição dos recursos no front, ocupação de territórios e criação de possibilidade de conflito e utilização da força letal como um expediente regular”. Segundo ele, a intensidade dessa prática provoca um efeito rebote sobre as próprias forças de segurança.>
“A alta taxa de letalidade provocada pelos agentes de segurança também pode se refletir na taxa de violência contra esses próprios agentes. Primeiro devido à altíssima exposição a cenários de conflito. Segundo porque a morte de uma pessoa no cenário de guerra muitas vezes gera um efeito de vingança sobre agentes específicos que cometeram aqueles atos. Então, se a gente intensifica – e o Estado tem intensificado – a lógica de ocupação de territórios e criação de zonas de conflito, isso expõe mais os agentes a episódios de violência”, diz.>
Ele afirma que é essencial investir em inteligência e em treinamentos que prevejam não apenas a utilização de armamento, mas a mediação de conflitos de maneira mais organizada e pacífica. >
“Isso reduz a necessidade imediata da utilização da força letal, protege os agentes de segurança, protege as comunidades afetadas e garante o cumprimento do devido processo legal. É necessário também a aquisição e ampliação imediata das câmeras corporais dos agentes, o que também cria cenários de segurança tanto do ponto de vista jurídico quanto do ponto de vista físico das pessoas envolvidas”, defende.>