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Agência Correio
Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 08:00
Maria Coffey já passou do momento em que decidiu não ter filhos, mas diz que a escolha continua abrindo e fechando portas. Com o tempo, as consequências mudam de forma e aparecem em lugares que ela não esperava. >
Isso é o fio condutor do livro Instead: Navigating the Adventures of a Childfree Life, lançado em 2023. A autora revisita a própria história e descreve como é envelhecer fora do roteiro mais comum.>
Origem dos sobrenomes
O relato não entrega uma moral pronta. Ele mostra que decisões irreversíveis carregam risco, e que a curiosidade pelo caminho não vivido pode surgir mesmo quando a escolha foi feita com convicção.>
Coffey diz que muita gente aprende cedo que ter filhos seria uma obrigação natural. “Acho que muita gente cresce com a ideia de que ter filhos é o nosso destino biológico”, afirmou, em ligação da Catalunha.>
Para ela, essa regra nunca encaixou. A diferença de desejo, segundo Coffey, pode virar cobrança em conversas simples, inclusive quando a pergunta parece apenas curiosidade.>
Ao falar sobre a mãe, Coffey não suaviza o conflito. “Eu não queria a vida que minha mãe queria para mim, uma vida estabelecida, segura, com plano de aposentadoria e um emprego fixo. Eu sabia que queria um tipo de vida diferente.”>
Ela diz que apostou em uma vida menos previsível. Ainda assim, reconhece que o mundo costuma recompensar quem segue o roteiro, e isso pode deixar quem escolhe diferente mais exposto a julgamento.>
Nascida na Inglaterra, em uma família irlandesa católica da classe trabalhadora, Coffey se descreve inquieta. Olhando o passado, ela destaca episódios que mexeram com sua relação com segurança e futuro.>
Ela quase se afogou e sentiu urgência de viver com intensidade. Mais tarde, perdeu o primeiro grande amor em um acidente de montanhismo, e isso reforçou a associação entre amor e perda.>
Na casa dos 30, Coffey foi para a costa oeste do Canadá, conheceu Dag Goering e os dois seguiram uma vida de viagens. Escrever, fotografar e trabalhar em diferentes lugares virou rotina.>
Em comunidades remotas, ela sentiu o julgamento sem filtro. “Quando eu viajava muito para lugares remotos, foi quando me fizeram sentir meio estranha em comunidades onde a escolha de não ter filhos é completamente inconcebível.”>
Com o tempo, a cobrança ganhou outra embalagem. “Depois... as perguntas eram: você teve filhos? Você tem netos? E vinha aquela enorme perplexidade.”>
Durante uma viagem ao Vietnã, Coffey conheceu Bac, uma menina que vivia na rua, e tentou ajudá-la. Ali, ela diz que experimentou um tipo de amor inesperado, com peso real.>
Ela descreve o impacto como ter sido pega de surpresa. Com o tempo, conclui que não ter tido um filho não impede perdas emocionais, porque vínculos fortes também nascem fora da parentalidade.>
Coffey chama esse puxão de “counterfactual curiosity”. Para ela, é a curiosidade pelo que poderia ter sido, algo que pode aparecer em escolhas que mudam tudo, como carreira, cidade e relações.>
O tema voltou com força quando Dag sofreu um acidente grave de bicicleta. Coffey diz que se pegou imaginando se teria sido conforto ter um filho com ele, e conta que o casal conversou muito.>
Ela conta a pergunta e a resposta que ficou. “Eu disse ao Dag: ‘você acha que a velhice seria mais fácil e suportável se tivéssemos filhos?’ E ele disse: ‘acho que é como lançar um foguete para o futuro com um pedacinho de você preso nele’. De certo modo, você não morre de verdade”, diz Coffey.>
Para ela, a imagem traduz desejo de continuidade. Ao mesmo tempo, não promete conforto automático, apenas ilumina a dúvida que pode aparecer na velhice.>
O livro não oferece garantias, mas ajuda a organizar perguntas que costumam ficar soltas. Ele deixa claro que a decisão não se resume a “ter” ou “não ter”, e sim a como viver depois.>
-Separe desejo de pressão social e familiar.>
-Pense em rede de apoio como prática, não como certeza.>
-Aceite que escolhas podem ser certas e ainda assim gerar dúvidas.>
Quando perguntam hoje, Coffey responde sem romantizar nenhum lado. “Eu costumo dizer que, quando mulheres jovens me fazem hoje a pergunta do bebê, eu respondo que é tudo um risco. Não ter um filho é um risco, ter um filho é um risco. A vida é um risco.”>
Ela reforça lembrando que a parentalidade também pode trazer dores profundas. “Eu conheço pessoas cujos filhos morreram, e isso é a pior coisa.” E completa: “Há tanto potencial de sofrimento”, diz Coffey.>
Mesmo com perguntas abertas, Coffey fecha o relato com um conselho direto. “Você só precisa seguir o seu coração”, diz.>
E finaliza: “O que quer que te puxe, vá na direção disso.”>