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Maria Raquel Brito
Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 15:58
O relógio nem marcava 6h direito e as latinhas de cerveja já eram personagens frequentes na Festa de Iemanjá, nesta segunda-feira (2). Popularmente, existe aquela divisão: de manhã é o momento do sagrado e de tarde, a hora das profanidades tomarem conta do Rio Vermelho. Mas, no fim das contas, tudo se mistura. Afinal, quando se tem duas mãos, por que não segurar uma rosa em uma e uma latinha na outra? >
Para a felicidade da vendedora ambulante Nalva Nascimento, muita gente pensa assim. E ela garante que a bebedeira começou há dias. “O pessoal não está nem bebendo ‘desde cedinho’, é desde ontem! Depois que levam o presente, vêm aqui beber. Já é certo”, afirmou.>
Veja como foi a Festa de Iemanjá em Salvador
Feitas as primeiras entrevistas, esta repórter, que também não é de ferro, aproveitou para comprar as flores que jogaria no mar. Escolhi três rosas numa barraca e, nos longos minutos entre desbloquear o celular e conseguir abrir o aplicativo do banco para fazer o Pix – bendita internet –, conheci melhor a vendedora Iranice, que tornou possíveis meus pedidos e agradecimentos a Iemanjá neste dia 2.>
Iranice está trabalhando desde a noite do dia 1⁰. Trouxe 50 pacotes com 20 flores e quase tudo já tinha ido embora antes das 8h. Está sem dormir, mas nem pretende: depois da festa, queria mesmo passar em casa, tomar um banho, se arrumar e direto para um arrocha na Suburbana. “Mas acho que nem vou. Vou curtir agora só depois do Carnaval”, decidiu.>
Quem sentiu fome em meio à festa também teve muitas opções, dos mingaus ao acarajé, passando por aquele pirão coringa. Mas a grande campeã é ela, a clássica feijoada. Da Fonte do Boi até a Praia da Paciência, cartazes de todos os tipos anunciavam a presença da iguaria em bares, restaurantes e barracas. >
De tão forte que é a tradição, alguns lugares suspenderam o restante do cardápio para focar na feijoada nesta segunda-feira. Outros preferiram manter as opções abertas para aqueles que não gostam ou não querem um prato tão pesado. Foi o caso de Miriam Cafezeiro, dona da Casa de Miriam. Quando janeiro vai chegando ao fim, ela já sabe: é hora de deixar tudo a postos para a procura do início de fevereiro. De domingo para segunda, assim como Iranice, ela nem dormiu. Se dedicou exclusivamente à sua já famosa feijoada. >
“Nossa varanda já virou um ponto certo. Hoje já veio uma turma muito às 4h30 da manhã, só para comer feijão. Depois, por volta das 10h, vem a segunda levada”, contou. >
Este ano, ela percebe que o movimento caiu na Festa de Iemanjá. A essa redução, ela associa o fato de ser segunda-feira, uma vez que a data não é feriado em Salvador. >
Além das rosas, dos tradicionais barquinhos e dos combustíveis para o corpo, as pessoas aproveitam o movimento para fazer uma renda extra de outras formas na beira do mar. Com tacadas quase infalíveis de propaganda, um rapaz, ao lado de dois baldes cheios de água, tentava convencer quem foi depositar as oferendas no mar a lavar os pés na saída da praia. >
“Você sabia que Iemanjá pediu para lavar o pé e deixar a areia na praia?”, perguntava a um grupo. “Você sabia que uma sandália limpa num pé sujo é a mesma coisa de ter olho azul e ser feio?”, dedicava a outro. E reforçava que a água nos baldes era uma mistura de água de rosas, pétalas e alfazema. O valor para ter os pés lavados por essa mescla milagrosa, segundo ele, era simbólico. Se tinha ali algo além de água salgada? Só quem lavou pode dizer. Mas uma coisa é certa: se tem três coisas que o baiano sabe, é como ser sagrado, profano e criativo. >