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Nauan Sacramento
Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 16:59
Dono do 1º lugar no curso de Medicina da USP, o baiano Wesley de Jesus, 22 anos, não teve a mesma trajetória que muitos dos seus colegas. Diferente da maioria dos aprovados na instituição paulista, o morador de Águas Claras não estudou em escola particular nem frequentou cursinhos. Após concluir o Ensino Médio no Colégio Estadual Ana Bernardes, em Cajazeiras VI, ele trilhou um caminho de estudo próprio. Sem recursos financeiros, sua biblioteca foi composta por materiais doados e conteúdos gratuitos da internet. >
“Me preparei de forma independente, estudando com o que estava ao meu alcance, tentando fazer o máximo de aproveitamento possível”, explica o estudante ao CORREIO. Apesar da repercussão nacional da sua nota e das mensagens de carinho de famosos nas redes sociais, Wesley faz uma ressalva importante: até o momento, nenhuma autoridade ou personalidade pública entrou em contato direto para oferecer auxílio prático ou financeiro. Todo o suporte recebido tem vindo da "população em geral".>
Wesley de Jesus, 22, aluno da rede publica e 1º lugar no vestibular de Medicina da USP
Por trás da aprovação em dos cursos mais cobiçados do Brasil, existe uma história que começou muito antes dos livros de cursinho. Para Wesley, que é filho de uma empregada doméstica e um pedreiro, o jaleco branco não é apenas um símbolo de status acadêmico, mas veio de uma vontade que nasceu ainda na infância, entre as paredes de hospitais onde tratava graves problemas respiratórios.>
Questionado sobre a escolha, o jovem de Águas Claras relembrou como as internações moldaram seu futuro. “Fui muito bem acolhido pelos profissionais que me atendiam e isso me marcou muito. Foi ali que percebi o impacto da Medicina e passei a sonhar em retribuir esse cuidado para a sociedade”, afirma.>
A aprovação, segundo ele, foi apenas a primeira etapa. Agora, o foco total é em conseguir viabilizar a mudança para Ribeirão Preto, no estado de São Paulo, e garantir recursos para assegurar sua permanência na universidade. Wesley criou uma "vaquinha" virtual para cobrir custos de moradia, transporte e alimentação na capital paulista, onde o custo de vida é um dos maiores do país.>
“Muita gente está divulgando a vaquinha e enviando mensagens de incentivo, o que tem sido fundamental. Prefiro não pensar na possibilidade de não dar certo. Chegar até aqui foi um processo difícil, de anos de dedicação. Não faria sentido desistir agora”, desabafa. >
A campanha de arrecadação de Wesley segue ativa nas redes sociais. Os fundos serão destinados exclusivamente à sua manutenção estudantil na Universidade de São Paulo durante o primeiro ano de curso. O estudante pretende arrecadar R$ 490 mil com a vaquinha. Até às 16h06 desta segunda-feira (2), tinha garantido R$ 104.272,17.>
Para Wesley, o sucesso no Sisu não é apenas uma vitória pessoal ou familiar, mas uma manifestação sobre o potencial da educação pública na periferia de Salvador. Ele vê sua jornada como um espelho para outros jovens que, assim como ele, dependem exclusivamente do próprio esforço e da solidariedade alheia para romper barreiras sociais. “Acredito muito no poder transformador da educação. Vou fazer o possível para seguir em frente e servir de exemplo para a geração de jovens que está por vir”, finaliza.>