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Dia de Iemanjá: fiéis vão ao Rio Vermelho para agradecer e renovar pedidos em Salvador

Desde a madrugada, celebração reúne multidões com flores e histórias de devoção à Rainha do Mar

  • Foto do(a) author(a) Maria Raquel Brito
  • Maria Raquel Brito

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 15:49

Festa de Iemanjá 2026
Festa de Iemanjá 2026 Crédito: Sora Maia/CORREIO

Em 1966, Vinicius de Moraes entoou um convite. “Vem comigo a Salvador para ouvir lemanjá”, dizem os versos de Canto de Iemanjá, composta com Baden Powell. Décadas depois, é fácil dizer que esse convite foi escutado e prontamente aceito mundo afora. Nesta segunda-feira (2), dia de homenagear a Rainha do Mar, as ruas do Rio Vermelho voltaram a ser tomadas pelo branco e azul das roupas e pelo aroma de alfazema.

Com rosas em mãos, gente de tudo que é lugar se reuniu no bairro para pedir e agradecer. E se engana quem acha que chegando de manhã cedo vai encontrar as ruas vazias. Isso porque o presente sai do galpão às 4h30 e chega na colônia às 5h, momento em que ocorre a tradicional alvorada de fogos. Antes mesmo das 5h, já se formava aquela agonia boa, com trânsito intenso na região e filas que davam voltas e voltas para acessar a Colônia de Pesca Z-01 e deixar seus presentes. Mas, acima de tudo, muita fé.

Miriam Cafezeiro é dona do restaurante Casa de Miriam por Sora Maia/CORREIO

“Para o ano, a gente vai dormir aqui”, planejava uma senhora na fila. Tudo para não ficar debaixo do sol esperando a vez de depositar a oferenda. Sheila Gualberto, de 43 anos, não precisou dormir lá, mas chegou cedo para conversar com calma com a mãe d’água. Assim faz todos os anos. Em 2026, porém, a festa teve ainda mais significado para ela. Foi para agradecer pela saúde do marido, que passou por um momento de dificuldade recentemente.

“Iemanjá é essa grande mãe, a mãe de todas as cabeças, e ela se fez presente em nossas vidas trazendo paz, trazendo cabeça tranquila. Passamos por um período de turbulência mantendo a nossa cabeça em paz e tranquila, tudo graças a Iemanjá. Hoje, já em uma outra fase mais feliz, a gente veio agradecer”, contou.

Uma mistura daquelas de sotaques e idiomas atravessavam os ouvidos de quem andava por lá. Pedaços do Brasil e de outros cantos do mundo juntos para celebrar Iemanjá. Nesse grupo, estão as estadunidenses Alicia Christine, 37, e Eve Austin, 34, que vieram da Pensilvânia e de Nova York, respectivamente. As duas se conheceram durante a festa e firmaram uma amizade forte ali mesmo.

“Iemanjá é um dos meus maiores orixás. Então, sinto um forte chamado espiritual aqui. É um lugar muito especial no mundo, especialmente se você é uma pessoa espiritualizada e pratica uma tradição africana. Acho que é o único lugar fora do continente onde você vai se ver representado, ver sua fé refletida, senti-la na essência da cidade e sentir essa proteção e esse amor”, disse Eve, antes de defender que Salvador é um dos lugares mais especiais que já visitou e contar que está prestes a se mudar de vez para cá.

Como uma boa festa popular em Salvador, o Dois de Fevereiro tem fila para tudo, desde deixar a oferenda na colônia ao momento de descer para a praia. Mas quem conhece tem sempre um jeitinho. “Vamos por ali que tem uma escada escondida”, disse uma moça a seu companheiro em meio a multidão que tentava chegar na areia. Atenta à conversa alheia – para fins jornalísticos, claro –, a repórter que vos fala prontamente foi atrás dos dois. E não é que tinha mesmo um caminho bem mais fácil?

O ruim era a distância entre o último degrau e o chão, que não passou despercebida por outras pessoas que chegavam perto de fazer o mesmo caminho. O desespero foi resumido no bom baianês por um rapaz prestes a descer: “vou tomar uma queda da disgrama”. No fim, deu tudo certo e nenhum de nós caiu.

A descida logo valeu a pena ao encontrar o casal Marlene Silva, 68, e Orlando Duarte, 79, fotografando um ao outro antes de depositarem suas flores no mar. Os dois fazem esse mesmo caminho, da casa no Acupe de Brotas até o Rio Vermelho, há 30 anos.

“Todo baiano tem um pouquinho a mais [de devoção]. E quem não gosta do azeite gosta da gordura”, definiu Orlando. “Portanto, estamos sempre presentes para festejar Iemanjá. Porque a gente a admira e, pelo menos eu acho, tem um pouquinho de proteção. Porque é muita gente para ela dar atenção, mas sobra sempre um pouquinho para cada um de nós. Por isso nós estamos sempre aqui todo ano para agradecer e renovar os pedidos.”

A alguns metros, o fotógrafo João Werneck, 29, registrava a festa e a traduzia para seu olhar. Ele era uma das muitas pessoas com câmeras em mãos, captando cada detalhe das homenagens. Autor do projeto Ndendê, no qual vem trabalhando há alguns anos, o carioca veio para a Bahia acompanhar um grupo específico de baianas, mas aproveitou o tempo antes delas chegarem para olhar a festa por outros ângulos.

“Eu estou aproveitando para fazer mais cenas para compor por aqui. Questões, por exemplo, de indumentária ou das oferendas, alguns símbolos que dialogam com a cultura e que estão no imaginário do povo sobre as festas aqui de Salvador”, contou.

Seguindo a febre nacional da corrida, os tênis e roupas de academia se fizeram presentes na Festa de Iemanjá. Não é estranho: para quem curte correr, deve ser o cenário ideal fazer isso cedinho, de madrugada, e ir com calma pôr sua devoção em prática – une o útil ao agradável. Assim estavam Larissa Melo, 34, e Pablo Matos, 35, vestidos de azul como pede a tradição, deixando suas flores no mar. Se o tênis voltou encharcado, eles não se importaram. O casal já foi dormir ontem na expectativa para a caminhada de hoje. Afinal, essa seria especial.

“Na verdade a caminhada no nosso caso foi um pretexto, porque a ideia era mesmo vir para cá. Acordamos 4h30, fizemos uma preparação e já viemos mentalizando boas energias. Compramos nossa rosa, fizemos nossa oração e foi isso. Todo ano estamos aqui”, disse Larissa.

Autoridades também marcaram presença na celebração. Por volta das 7h, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) compareceu à Colônia de Pesca Z-01, onde acompanhou o ritual e destacou o significado espiritual da festa para os baianos. O prefeito Bruno Reis (União Brasil), foi ao local no período da tarde, quando ajudou a conduzir o presente para o mar ao lado do vice-presidente nacional do União Brasil, ACM Neto.