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Maria Raquel Brito
Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 14:37
Se há algum nervosismo nas 15 finalistas ao título de Deusa do Ébano deste ano, ele se esconde perfeitamente atrás do brilho nos olhos e dos movimentos serenos das candidatas. Depois de meses de preparação, elas foram apresentadas oficialmente em um café da manhã com a imprensa nesta sexta-feira (16), um dia antes da 45ª edição da Noite da Beleza Negra, que vai definir a nova rainha do Ilê Aiyê. >
O encontro aconteceu no Quality Hotel & Suítes São Salvador, e contou com a presença da diretoria do Ilê, de representantes do evento e, claro, das grandes estrelas: as finalistas. Nesta edição, concorrem à coroa: Bruna Christine, Camila Silva, Camila Morena, Carol Xavier, Cecília Cadile, Dandara Namíbia, Joana Sousa, Larissa Oliveira, Mavih Souza, Nayara Temporal, Rafaela Rosa, Raíssa Batista, Sarah Moraes, Stephanie Ingrid e Thuane Vitória.>
Confira as finalistas ao título de Deusa do Ébano
As finalistas foram escolhidas em dezembro, entre 122 mulheres negras entre 19 e 35 anos, de diferentes regiões do país. Uma seleção difícil, mas necessária. Jaci Trindade, coordenadora das candidatas, sabe bem disso. “Deu muito trabalho”, diz. A preparação é intensa. O processo, que começa já no momento da seleção, conta com aulas de dança, acompanhamento psicológico e oficinas voltadas para assuntos como mídias sociais. >
Depois de tanta dedicação, o dia anterior ao grande momento é reservado para relaxar. Hospedadas no hotel onde aconteceu o café da manhã com a imprensa, elas passarão a tarde num momento de autocuidado, recebendo uma limpeza de pele do Instituto Yalodê.>
“Esse é um momento bem esperado para elas antes do concurso, porque é quando elas são apresentadas de verdade ao público, onde toda essa sociedade as vê. Temos duas meninas de outros estados, temos uma mulher trans também concorrendo. É maravilhoso e eu adoro vê-las assim, felizes, distraídas, descontraídas. E é um espelho, né? Porque elas estão sendo representatividade para várias mulheres e crianças pretas”, afirma Jaci.>
A Deusa do Ébano vai representar o Ilê Aiyê por um ano, com toda a força, energia e responsabilidade que o título exige. Quem usa essa coroa atualmente é Lorena Bispo, de 23 anos. Para ela, ver as candidatas desta edição é como viajar no tempo. >
“Eu vejo esse reinado de maneira muito transformadora, de muitas rupturas, mas com muitas convocações, muitas modificações e muita reverência. Eu acredito que reverenciei e seguirei reverenciando a todos aqueles que me cercam, a todas as pessoas que eu nem imagino que também se inspiram e que estão colaborando energeticamente e fisicamente também para os meus caminhos”, diz.>
Perguntada que orientação daria às candidatas de hoje, ela responde prontamente: a chave é respirar e se manter firme. “É um momento que precisa ser vivido com muita tranquilidade, apesar do nervosismo, da ansiedade, da agonia. É viver, respirar, se divertir. É um momento único para cada uma. Por mais que estejamos lá bailando, dançando, é uma competição. Então, é entender de que maneira você se mantém firme, muito bem equilibrada, muito bem entendida da sua história e do que você vai contar. E de como você vai se emocionar e emocionar o público.” >
Para Vovô do Ilê, fundador e presidente do Ilê Aiyê, alguns elementos são essenciais na Deusa do Ébano. Os requisitos aqui não são peso ou altura, mas itens que vão muito além. Segundo ele, a rainha precisa ter informação, autoestima elevada e “o pé lavado para dançar”. “A dança é o que pesa mesmo. Tem que estar preparada para ficar durante o desfile ali sem parar. Não é brincadeira, não”, define.>
Depois de 45 anos da primeira edição da Noite da Beleza Negra, Vovô do Ilê sente como se fosse a primeira. A expectativa, o esforço para que tudo saia nos conformes. A grande diferença é o espaço conquistado pelo concurso. >
“Quando foi anunciado que ia ter a primeira Noite da Beleza Negra, a cidade de Salvador tomou um susto, não queria saber o que era isso. Nós tivemos muita dificuldade de achar um espaço adequado, porque as pessoas não queriam alugar os clubes aqui em Salvador para esses negão do Curuzu, mas nós conseguimos fazer no Clube Comercial na Avenida Sete. A partir daí, foi se organizando, tomando fôlego”, relembra.>
Hoje, desafios ainda existem. O evento cresceu e ficou mais sofisticado e, com isso, os custos aumentaram. Mas, acima de tudo, o concurso se consolidou como uma das mais importantes celebrações da beleza negra em todo o país.>
Ilê Aiyê
Quando olha para trás, Arany Santana também exalta a contribuição decisiva da Deusa do Ébano na afirmação da identidade das mulheres negras no Brasil. Segundo a ex-diretora do mais belo dos belos e ex-secretária estadual da Cultura, o Ilê Aiyê exaltou a beleza das mulheres negras num momento em que elas ocupavam o último degrau da sociedade.>
“Você imagine isso: há 45 anos, fazer um concurso de mulheres negras, que repercussão não tinha na sociedade. Era até patético, ridículo para muitos, mas nós fazíamos e insistimos em dizer à própria mulher que ela era bonita, que o cabelo dela não era duro, era crespo. Não era feio, era bonito”, diz. >
A Noite da Beleza Negra deste ano, que acontece neste sábado (17), na Senzala do Barro Preto, no Curuzu, tem como tema “Entre turbantes e cocares: o encontro de coroas”. A escolha foi em homenagem a Maricá, cidade do Rio de Janeiro que teve sua maciça população Tupinambá silenciada.>
“Os povos originários também são nossos parceiros. Graças a eles os quilombos foram formados, porque eles foram a nossa trilha, eles que nos orientaram, orientaram os nossos ancestrais, onde tinha água, onde tinha frutos. Então, hoje o Ilê Aiyê faz uma ação de reparação desse carnaval homenageando os povos originários”, conta Arany.>
Veja imagens do encontro com a imprensa
As três primeiras colocadas recebem troféus pensados nos mínimos detalhes para o concurso. Aless Teixeira, criador do projeto, explica que a escultura representa “a grande mãe”, no sentido de quem sustenta a sociedade. >
“Quando eu fui convidado pela diretoria do Ilê para renovar o troféu, busquei quais atributos eles queriam na escultura. Vindo para casa, ficou aquela ideia errônea de que se tratava de um desfile de beleza. Fiz uma proposta, botei uma faixa, fui feliz da vida e me deparei com eles dizendo: ‘não, não é isso. A beleza negra se trata de uma valorização da cultura negra, um resgate e um empoderamento da mulher’. Então, depois de uma aula, a gente concebeu uma escultura que remete às nossas tradições culturais, às danças e à centralidade feminina”, afirma.>
A música fica por conta da Band’Aiyê, que apresentará as canções vencedoras do último Festival de Música Negra, como "Curuzu Mainha" e "Malassombrada". O palco também receberá convidados de peso, como Aiace, Sued Nunes, Tiganá Santana, Tonho Matéria e a personagem Koanza, interpretada por Sulivã Bispo.>
Os ingressos estão sendo vendidos pelo site MeuBilhete. O Ilê Aiyê disponibilizou um lote social com preços populares (R$ 24 a meia) para garantir o acesso da comunidade. Os demais setores variam entre R$ 80 (pista/meia) e R$ 300 (camarote/inteira).>