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Carol Neves
Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 09:35
Antes de Cléber Rosa de Oliveira confessar à Polícia Civil que matou a corretora Daiane Alves Souza, de 43 anos, durante uma discussão no subsolo do condomínio onde ambos moravam, os dois já acumulavam um histórico prolongado de conflitos no condomínio onde ela morava, em Caldas Novas (GO). As divergências começaram com disputas administrativas, evoluíram para registros policiais, ações judiciais, denúncias do Ministério Público e culminaram em uma tentativa de expulsão da corretora do prédio - episódio posteriormente suspenso pela Justiça. >
Segundo dados do Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO), Daiane e Cléber figuravam em ao menos 12 processos judiciais, envolvendo acusações de calúnia, difamação, lesão corporal e violação de domicílio. O início do conflito está ligado a um desentendimento envolvendo a locação de um imóvel com número de hóspedes acima do permitido pelas regras internas do condomínio. A partir desse episódio, teriam ocorrido atritos diretos entre Daiane e o síndico, dando início a uma série de medidas administrativas que, mais tarde, passaram a ser questionadas judicialmente.>
O corpo de Daiane foi encontrado já em estado de ossada na manhã desta quarta-feira (28), a cerca de 15 km de Caldas Novas, e Cléber confessou o crime, afirmando que matou a corretora durante uma briga no subsolo do prédio. >
Corretora estava desaparecida desde dezembro
Discussões registradas e acusações de agressão>
Em janeiro de 2025, a administração do condomínio notificou Nilce Alves Pontes, mãe de Daiane e proprietária do imóvel, alegando que o apartamento estaria sendo utilizado como marcenaria. Segundo a notificação, a atividade feria normas internas, causava transtornos aos demais moradores e deveria ser encerrada em até 72 horas, com a retirada de máquinas e materiais, sob risco de multa. Daiane era quem residia no local.>
O condomínio alegou não ter recebido resposta à notificação inicial e, em comunicados posteriores, sustentou que não houve contestação formal e que as irregularidades persistiam.>
Em fevereiro, Daiane foi denunciada pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) por violação de domicílio, em um episódio registrado por câmeras de segurança do condomínio após uma briga com o síndico na recepção. Segundo a denúncia, Daiane tentou entrar em uma sala onde Cléber conversava com seu padrasto, Arnaldo Silva, de 79 anos, sobre um vazamento em um apartamento da família.>
As imagens mostram o síndico entrando na sala e fechando a porta de vidro, momento em que Daiane chega, bate na porta e afirma que não queria que ele ficasse sozinho com o familiar. Em seguida, ela acusa Cléber de tê-la agredido momentos antes. A defesa da corretora sustentou que ela agiu para proteger o padrasto após uma situação de risco. Conforme o MP, Daiane conseguiu entrar no local após a porta ser aberta pelo filho do síndico e foi contida após o acesso.>
No fim de abril, o conflito avançou para a esfera criminal. No dia 30, Daiane registrou um boletim de ocorrência por violação de domicílio contra o síndico. Ela afirmou ter tomado conhecimento, por mensagens de WhatsApp, de que Cléber teria entrado em seu apartamento sem autorização. O síndico confirmou a entrada, afirmando que foi ao local para filmar e comprovar a suposta existência da marcenaria.>
Síndico foi preso por morte de corretora
Cortes de energia, denúncia por perseguição e tentativa de expulsão>
Ainda em maio, o condomínio informou sobre a possibilidade de corte no fornecimento de água do imóvel ligado à família de Daiane, sob alegação de inadimplência. No mesmo período, a energia elétrica do apartamento chegou a ser interrompida. A Justiça determinou a religação do serviço e proibiu novas suspensões enquanto o caso estivesse em análise.>
Com a escalada dos conflitos, o Ministério Público de Goiás denunciou o síndico, em 19 de janeiro, pelo crime de perseguição (stalking), com agravante de abuso de função. Segundo o MP, Cléber teria utilizado o cargo para monitorar Daiane, submetê-la a constrangimentos recorrentes e dificultar sua rotina no condomínio.>
Em agosto, o síndico convocou uma assembleia para deliberar sobre a expulsão da corretora. A pauta listava 19 pontos, incluindo acusações de exercício irregular da corretagem, manutenção de marcenaria no apartamento, desrespeito às regras de acesso, constrangimento de funcionários, uso indevido das áreas comuns, supostas ameaças a moradores, litigância contra o condomínio e exposição do síndico.>
Daiane apresentou defesa por escrito e negou todas as acusações. Ela afirmou que não exercia atividade profissional de forma irregular, que não havia marcenaria no imóvel — apenas a montagem eventual de móveis próprios — e que nunca ameaçou moradores ou funcionários. No documento, sustentou ainda que as acusações mais graves eram infundadas, sem registros policiais ou laudos técnicos, e que recorrer à polícia e à Justiça era um direito legítimo.>
Apesar da defesa, a maioria dos condôminos votou pela expulsão: 52 votos favoráveis à saída, quatro pela permanência e duas abstenções. A decisão determinava que Daiane deixasse o prédio em até 12 horas e mantivesse distância mínima de 100 metros da recepção.>
A medida foi suspensa após recurso apresentado por Daiane ao Juizado Especial Cível. Ela alegou que o condomínio não respeitou o prazo mínimo entre a convocação e a realização da assembleia. O juiz André Igo Mota de Carvalho acatou o pedido, destacando que a legalidade da reunião ainda seria analisada. A suspensão foi definida como provisória até manifestação do condomínio.>
Desaparecimento e morte>
Daiane desapareceu na noite de 17 de dezembro de 2025, após descer ao subsolo do Edifício Ametista Tower para verificar a falta de energia em seu apartamento. Naquele momento, a Polícia Civil afirmava que não tratava o caso como crime e dizia não haver suspeitos.>
Imagens de câmeras de segurança mostram Daiane circulando pelo prédio enquanto gravava vídeos para uma amiga. Em uma das gravações, ela afirma: “Todas as minhas contas estão pagas, então não tem motivo da minha energia ter sido rompida”, além de sugerir que alguém poderia estar “brincando de desligar” o disjuntor. Depois de entrar no elevador e passar rapidamente pela recepção, ela seguiu para o subsolo e não foi mais vista.>
"Trabalhamos com a hipótese da Daiane ter deixado o local por conta própria ou mesmo ter sido levada do prédio. A polícia não trabalha com suspeitos porque não existe comprovação de que Daiane possa ter sido morta", disse o delegado André Barbosa, à época, em entrevista à TV Anhanguera.>
Nesta quarta-feira (28), o caso chegou a um desfecho. O corpo de Daiane foi encontrado em estado de ossada, abandonado a cerca de 15 quilômetros de Caldas Novas. Cléber Rosa de Oliveira confessou à polícia que matou a corretora durante uma discussão no subsolo do condomínio. Ele alegou que agiu sozinho e não planejou o crime. >