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Maysa Polcri
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 06:00
Não demorou para que as alterações na forma de cobrança do Planserv, o plano de saúde dos servidores estaduais, causasse transtornos na vida dos beneficiários. Sem garantia de melhorias no atendimento, funcionários públicos e aposentados já encaram mensalidades até 131% mais caras e diretamente descontadas na folha. Muitos já estudam deixar o plano, o que pode trazer consequências graves para o serviço de saúde. >
O CORREIO teve acesso a seis contracheques de servidores estaduais que tiveram aumentos consideráveis nas mensalidades. De dezembro para janeiro, os descontos tiveram reajustes que variam entre 81% e 131%. Os percentuais mudam conforme os salários: quanto maiores as remunerações, maior são as mensalidades. >
Isso é possível porque, no final do ano passado, o governo do estado apresentou um projeto de lei para alterar totalmente a forma de cobrança do plano, que antes era feita com base em faixas salariais. Previsões do próprio governo já apontavam que apenas 30% dos beneficiários teriam redução de mensalidade. >
Projeto de Lei para reestruturação do Planserv
Com a aprovação do PL pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), um percentual fixo foi estabelecido para o valor dos descontos. O percentual é de 5,5% sobre a remuneração bruta, em 2026. No ano que vem, haverá aumento para 6%.>
Havia, antes das mudanças, um teto para a cobrança do plano, no valor de R$ 721. Sem o limite máximo para os descontos, servidores enfrentam reajustes significativos. >
Caso de um beneficiário que pagou R$ 1.211,98 em dezembro e, no mês seguinte, teve desconto de R$ 2.799,49 - um aumento de quase 131%. O valor inclui a assistência à saúde do servidor, cônjuge e o plano especial - que garante, em teoria, acomodação em apartamento. >
Porém, uma reportagem do CORREIO revelou que mesmo pagando o plano especial, beneficiários são internados em enfermarias pela falta de vagas disponíveis. >
Um outro servidor que compartilhou o contracheque com a reportagem teve reajuste de 126% em um mês. O valor do desconto na folha de pagamento subiu de R$ 1.659,36 para R$ 3.757,33 (a coparticipação foi excluída do cálculo por não possuir valor fixo). Confira mais exemplos na galeria abaixo. >
Reajustes de mensalidades do Planserv
A reestruturação do Planserv também trouxe mudanças para as cobranças de dependentes. A partir deste ano, cônjuge e companheiro(a) deverão pagar o valor correspondente ao percentual de 50% da contribuição do titular. Os demais tipos de dependentes pagarão o equivalente a 22%. O aumento da contribuição do Estado saiu de 2,5% para 3,25%. >
Os reajustes têm feito com que muitos beneficiários cogitem deixar o Planserv. A reportagem apurou que cerca de 20 funcionários do Tribunal de Contas do Estado (TCE) solicitaram desligamento do plano nos últimos dias. >
A Associação dos Gestores Governamentais do Estado da Bahia (AGGEB) alerta que a falta de um teto máximo para a cobrança deve afastar os beneficiários que têm os maiores descontos. Se isso ocorrer, é possível que o Planserv enfrente ainda mais problemas financeiros, uma vez que a participação dos servidores representa parte considerável da receita do plano. >
Uma servidora pública que teve rejauste de cerca de 40% nas mensalidades conta que já fez cotação de seguradoras particulares. "Nós enfrentamos um plano de saúde cada vez mais precarizado e ainda precisamos lidar com esse aumento. É humilhante", afirma a beneficiária que reclama ainda da recusa de hospitais particulares em atender a mãe, de 84 anos, nas emergências de Salvador. O CORREIO já mostrou que esse é um problema recorrente na capital baiana. >
Com uma mensalidade que ultrapassa os R$ 1.110, a servidora se vê "presa" ao Planserv. "Eu pago para mim, meu marido e meu filho. Chegamos a fazer cotação de planos privados, mas, pela nossa idade, é muito difícil conseguir. Então, a gente se sente refém do Planserv, que tem serviço ruim", acrescenta a beneficiária, que prefere não se identificar por meio de represálias. >
A insatisfação dos servidores com o aumento das mensalidades foi debatida na quinta-feira (29), durante uma reunião entre o coletivo Carreiras de Estado Organizadas (CEO) e o coordenador do Planserv, Luiz Eduardo Perez, que assumiu a função em setembro do ano passado. >
O grupo inclui servidores baianos que têm os maiores salários do funcionalismo público e, consequentemente, os maiores descontos. São eles procuradores de Estado, auditores fiscais, defensores públicos, gestores governamentais, magistrados e promotores. Durante o encontro, o coletivo apresentou as demandas do grupo, especialmente a retomada de um teto para as cobranças. >
Luiz Eduardo Perez afirmou que levará o pleito ao Governo do Estado, porém, ainda não sinalização de que o valor máximo de cobrança seja retomado. A reportagem entrou em contato com o Planserv, através da assessoria de imprensa, que não se manifestou sobre as insfatisfações dos servidores. >
Rede de hospitais e UPAs credenciadas ao Planserv
Thiago Xavier, presidente da Associação dos Gestores Governamentais do Estado da Bahia, afirma que foram apresentadas, na reunião, propostas para o reajuste gradual das mensalidades. "Apresentamos nossos pleitos pelo estabelecimento de um teto de contribuição e por uma majoração mais gradual, uma vez que muitos colegas viram suas contribuições aumentarem em mais de 200% de um mês para o outro", diz. >
O grupo não descarta a possibilidade de ingressar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) questionando as mudanças. "O coordenador do Planserv se comprometeu a encaminhar as demandas ao governo, e esperamos que isso ocorra para evitar uma evasão em massa de beneficiários, o que poderia comprometer a sustentabilidade financeira do Planserv", acrescenta. >
As medidas de reestruturação do Planserv tentam conter a crise da assistência médica dos servidores estaduais baianos. O balanço financeiro do plano em 2024 revelou déficit de R$ 198 milhões. A receita foi de R$ 2 bilhões, enquanto a despesa foi na ordem de R$ 2,2 bilhões. Em 2023, o rombo nas contas do Planserv foi de R$ 147 milhões. >