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Maysa Polcri
Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 13:00
Muito antes da Consolidação das Leis do Trabalho, da Era Vargas e até mesmo da Abolição da Escravidão completar seus primeiros anos, Salvador já conhecia uma experiência inédita de justiça social e organização urbana. No centro dessa história está Luiz Tarquínio, um dos personagens mais importantes — e menos lembrados — da formação econômica e social da Bahia.>
Nascido em Salvador, em 1844, Luiz Tarquínio era filho de Maria Luíza dos Santos, uma mulher negra, ex-escravizada, que conquistou a liberdade e lutou para criar e educar o filho em meio a uma realidade marcada pela pobreza. >
Desde cedo, Tarquínio precisou trabalhar para sobreviver. Vendeu bilhetes de loteria, doces caseiros, artesanato e bonecas de pano feitas pela mãe. Foi carregador e fez de tudo um pouco até, aos 10 anos de idade, conseguir seu primeiro emprego formal como ajudante em uma loja de tecidos.>
Conheça a história de Luiz Tarquínio
Sem acesso a uma formação escolar além do ensino primário, construiu sua trajetória como autodidata. “Ele aprende inglês sozinho, cresce dentro das empresas em que trabalha e demonstra uma habilidade absurda”, destaca o historiador Murilo Mello. >
Essa capacidade o levou à firma suíça Frères Bruderer, importadora de tecidos ingleses, onde passou a sugerir padronagens diretamente aos fabricantes de Manchester, adequadas ao gosto brasileiro. O reconhecimento veio em 1877, quando foi elevado à condição de sócio da empresa.>
No livro História da Bahia, o historiador Luiz Henrique Dias Tavares, define Tarquínio como “o mais ilustre e destacado pioneiro das tentativas de industrialização da Bahia nas décadas finais do século XIX e início do século XX”. Segundo ele, Tarquínio tinha o suficiente para ser “mais um rico comerciante da Bahia”, mas escolheu outro caminho.>
As viagens à Inglaterra, no final do século XIX, foram decisivas. Lá, Tarquínio conheceu experiências industriais que apostavam em melhores condições de vida e trabalho para os operários. “Ele vai viver esse universo europeu em que se acreditava que melhorar as condições de trabalho também era uma forma de justiça social, e teve coragem de trazer isso para o Brasil”, contextualiza o historiador Murilo Mello. Vale lembrar que o país que havia acabado de abolir a escravidão e ainda tratava trabalhadores quase como cativos.>
Em 1891, fundou a Companhia Empório Industrial do Norte, uma fábrica têxtil instalada na região da Boa Viagem, na Cidade Baixa. O grande legado, porém, viria depois, quando Luiz Tarquínio mandou construir uma vila operária com 258 casas, ao lado da fábrica, no bairro da Boa Viagem, que hoje tem uma avenida em sua homenagem. Uma das principais vias de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, também carrega seu nome. >
"Consideramos essa vila como talvez o primeiro condomínio popular da história da Bahia — e possivelmente do Brasil”, afirma Murilo Mello. O projeto previa moradia próxima ao trabalho, reduzindo o desgaste do operário e melhorando a produtividade.>
A Vila Operária possuía um padrão urbano incomum para a época: ruas arborizadas, jardins, praças, iluminação elétrica, armazém, biblioteca, escola, creche e atendimento médico e odontológico. “Ele entendia que, se a pessoa tivesse um tratamento melhor, familiar melhor, ela iria produzir melhor — uma concepção que demorou muito a chegar ao Brasil”, ressalta Murilo.
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Os trabalhadores pagavam um aluguel correspondente a um quarto do salário e, após cinco anos, tornavam-se donos das casas. Havia ainda licença-maternidade, décadas antes de qualquer legislação trabalhista. Um modelo de organização social que só seria institucionalizado no país meio século depois, com a CLT.>
Além de industrial, Luiz Tarquínio também teve atuação política. Foi prefeito de Salvador e conselheiro municipal. Em 1890, durante a Tragédia do Taboão — um dos maiores desastres urbanos da história da cidade — determinou que a prefeitura arcasse com os custos dos funerais das vítimas e participou pessoalmente do cortejo fúnebre, carregando um dos caixões. >
A morte de Luiz Tarquínio, em outubro de 1903, causou comoção em Salvador. Repartições públicas suspenderam atividades, o comércio fechou as portas e milhares de pessoas acompanharam o enterro. Na vila operária, a fábrica, a escola e a creche interromperam o funcionamento. >
Mais de um século depois, a trajetória de Luiz Tarquínio permanece como um dos capítulos mais avançados da história urbana, industrial e social de Salvador. Seu legado antecedeu o Estado e revelou que a cidade já ensaiava, muito cedo, caminhos de justiça social.>