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Ana Beatriz Sousa
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 15:36
[ALERTA: Este texto aborda temas como estupro e violência doméstica, o que pode servir de gatilho para algumas pessoas. Se você ou alguém que você conhece está passando por isso, denuncie e busque ajuda. Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher).]>
O desabafo de Nana Gouvêa não é apenas uma recordação dolorosa; é um grito de alerta e a realidade de milhões de brasileiras. Recentemente, a atriz e modelo decidiu abrir o coração e revisitar feridas que ficaram guardadas por décadas. Em entrevista a Quem, Nana revelou que sua trajetória foi marcada por ciclos de violência que começaram quando ela era apenas uma criança. >
Aos 50 anos e vivendo nos Estados Unidos, ela conta que o assédio bateu à sua porta cedo demais: aos seis anos de idade. Sem entender o que acontecia e vivendo em um ambiente onde o tabu sobre o corpo era a regra, Nana cresceu sob o peso do medo. Um dos momentos mais chocantes de seu relato é a revelação de que sua "primeira vez", aos 14 anos, não foi uma escolha, mas um estupro cometido por vizinhos.>
A cultura do silêncio e o controle familiar Nana descreve uma estrutura familiar onde o machismo era o pilar central. Ela recorda que o próprio pai, visto pela sociedade como um homem respeitável, exercia um domínio tirânico dentro de casa. Quando engravidou aos 16 anos, em vez de acolhimento, recebeu agressões físicas. "Ele socava minha barriga", relembra a atriz, destacando como a culpa sempre era empurrada para seus ombros, mesmo sendo ela a vítima da situação.>
A violência não parou na juventude. Já casada com o pai de suas filhas, Nana viveu o que muitas mulheres enfrentam no sistema de saúde: a perda da autonomia sobre o próprio corpo. Durante o parto da segunda filha, o marido usou a legislação da época para impedir que ela fizesse uma laqueadura enquanto estava anestesiada. "Ele me roubou o sorriso de ver minha filha nascer", lamenta.>
Nana Gouvêa
A virada na vida de Nana veio com a coragem de romper com o ciclo de violência. Ela fugiu para o Rio de Janeiro, onde construiu uma carreira de sucesso na televisão e nas revistas, conquistando a independência financeira que seu pai e seu ex-marido sempre tentaram controlar.>
Hoje, com as filhas adultas e estabilizada, Nana usa sua voz para bater em uma tecla fundamental: a informação. Para ela, a única forma de proteger crianças e mulheres é quebrar o tabu, falar abertamente sobre limites e educação sexual nas escolas. O recado dela é claro e acolhedor: a vergonha não deve pertencer à vítima. A liberdade, por outro lado, é um direito que ela finalmente pode exercer em plenitude.>