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O que significa a perna cabeluda em 'O Agente Secreto'? Entenda as referências culturais do filme

Filme de Kleber Mendonça Filho mistura lenda urbana, gírias nordestinas e memória da ditadura

  • Foto do(a) author(a) Ana Beatriz Sousa
  • Ana Beatriz Sousa

Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 09:32

Wagner Moura em O Agente Secreto e a Perna Cabeluda Crédito: Reprodução

Se você saiu da sessão de O Agente Secreto com mais perguntas do que respostas, saiba: não está sozinho. Vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar 2026, o novo filme de Kleber Mendonça Filho vem chamando atenção não só pela força política e estética, mas também por referências culturais que nem todo mundo reconhece de primeira. Entre elas: a misteriosa perna cabeluda.

A tal perna cabeluda surge em um dos momentos mais inquietantes do longa. Uma perna humana, enorme, coberta de pelos e sem corpo, aparece inicialmente na boca de um tubarão. Depois, passa a 'andar' pelas ruas de Recife, espalhando pânico e atacando moradores. Para quem não conhece o contexto, a cena soa surreal, quase absurda. Mas, para o público pernambucano, ela carrega um peso histórico e simbólico bem maior.

A figura vem de uma lenda urbana famosa no Recife nos anos 1970. Registros da época descrevem a perna cabeluda como um membro gigantesco que surgia do nada, projetava sombras nas paredes e aterrorizava pessoas nas ruas. As primeiras menções apareceram nos jornais em 1975, em pleno regime militar, exatamente o período em que o filme é ambientado.

A história ganhou força quando o escritor e jornalista Raimundo Carrero publicou um texto sobre o assunto no Diário de Pernambuco, em 1976. A partir daí, rádios começaram a receber relatos de supostos avistamentos, e a criatura passou a existir de verdade no imaginário popular. Anos depois, Carrero revelou que tudo começou como uma brincadeira entre jornalistas, estimulada pelas limitações impostas pela censura.

Wagner Moura em O Agente Secreto e a Perna Cabeluda por Reprodução

Ainda assim, estudiosos enxergam na perna cabeluda um símbolo potente: um medo difuso, sem rosto, que ataca sem explicação, muito parecido com o clima de repressão, violência e desaparecimentos que marcavam o Brasil da ditadura.

Mas O Agente Secreto não se limita às metáforas visuais. Em uma cena aparentemente simples, um diálogo virou motivo de debates acalorados nas redes. O personagem Alexandre, vivido por Carlos Francisco, dispara para o genro Marcelo (Wagner Moura): "Raparigou ou não raparigou?". 

No Nordeste, “raparigar” é uma expressão popular para se referir à traição. A dúvida lançada no filme lembra, de imediato, o eterno dilema de Dom Casmurro: traiu ou não traiu? Marcelo escapa da resposta, deixando tanto o sogro quanto o espectador no escuro.

Wagner Moura em O Agente Secreto e a Perna Cabeluda por Reprodução

Essas camadas escondidas ajudam a explicar por que O Agente Secreto vai muito além de um suspense político. O filme costura referências profundas da cultura pernambucana e brasileira: da lenda urbana à estética modernista (com cartazes que remetem a Tarsila do Amaral), passando por espaços simbólicos como o Cinema São Luiz e o Parque 13 de Maio.

Há ainda ecos da contracultura e do cinema como memória, um diálogo direto com Retratos Fantasmas, obra anterior de Kleber. Nas referências internacionais, o longa conversa com clássicos como Tubarão, de Steven Spielberg, Zona de Interesse e até com o suspense psicológico de Alfred Hitchcock.

Ambientado entre 1979 e 1981, no fim da ditadura militar, O Agente Secreto fala de repressão, identidade, esquecimento e resistência. Mostra que o passado, por mais que tente ser enterrado, sempre encontra uma forma de voltar, às vezes como uma perna cabeluda andando sozinha pelas ruas.

Tags:

Cinema Filme Oscar Wagner Moura O Agente Secreto Kleber Mendonça Filho