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Costa Azul: o "complicado e perfeitinho" à beira-mar

Conheça a história do bairro que nasceu "na marra", abrigou Gilberto Gil e convive com a sombra do "QG do crime"

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 1 de dezembro de 2025 às 22:06

Costa Azul
Costa Azul Crédito: Crédito: Mauro Akin Nassor

O Costa Azul, hoje consolidado como um bairro de valorização média-alta e de localização estratégica em Salvador, carrega uma história de origens que misturam a "sofisticação de um balneário europeu" com o mais puro improviso baiano. Calma que eu explico.

Antes da verticalização, esta área - limitada pela Pituba, STIEP e Armação - era um cenário quase intocado de dunas brancas, coqueiros e um extenso areal. A grande transformação começou em 1974 com a construção do primeiro edifício, o Edifício Pedra de Allah I (ou Praia de Alá 1), na antiga Rua dos Maçons, hoje Rua Dr. Boureau.

A lenda do batismo

Reza a lenda que a identidade do bairro nasceu de uma necessidade hilária: em sua primeira reunião, os condôminos do Edifício Pedra de Allah I precisavam de um nome curto para o endereço. O motivo? A prática bancária da época exigia que o endereço fosse escrito no verso de cada cheque!

Rejeitando a opção STIEP (para se diferenciarem do conjunto habitacional dos petroleiros), eles escolheram Costa Azul, em uma homenagem dupla: ao sofisticado balneário francês Côte d’Azur e a um famoso clube social que já existia por ali, o Clube Costa Azul. O batismo foi, então, oficializado "na marra", quando os próprios moradores começaram a enviar correspondências para si mesmos com o novo nome, numa tática sagaz para "acostumar o carteiro".

Charme e DNA comunitário

Apesar de ser um bairro geograficamente compacto, o Costa Azul vibra com uma densidade cultural interessante. Suas ruas já serviram de lar para figuras de peso da música brasileira: Gilberto Gil morou em uma casa na Rua Vicente Batalha, e sua filha, Preta Gil, estudou numa escola do bairro. Outro morador ilustre e participante da histórica reunião de batismo foi "Perna" Fróes, pianista que tocou com Maria Bethânia e Cauby Peixoto, entre outros grandes nomes. Há relatos de que Jorge Amado e Zélia Gattai também tiveram uma ligação afetiva com o bairro em sua fase inicial.

A vida cotidiana é marcada pela comodidade e pela tradição de serviços que atravessam as décadas. A infraestrutura é um ponto forte, com coleta de lixo, abastecimento de água e rede de esgoto atingindo praticamente a totalidade dos domicílios.

Além de abrigar grandes redes como o G. Barbosa, o comércio de proximidade é um verdadeiro tesouro local, mantendo um clima de interior onde muitos se conhecem. O Chalezinho, por exemplo, tem mais de 30 anos de história, oferecendo bolos e pratos de frente para o mar. O Acarajé da Eliana, com mais de três décadas de tradição, está frequentemente listado entre os melhores da cidade. A Panificadora Costa Azul e os tradicionais bares como o Bar do Jonas, o Bar do Luiz e o BarTal (verdadeiras referências de boemia, simplicidade e boa mesa) resistem ao tempo. O bairro também é sede de uma das academias mais antigas de Salvador, fundada em 1995.

A localização é outro superlativo: o bairro tem acesso privilegiado à orla e a importantes vias como a Avenida Tancredo Neves e a Avenida Magalhães Neto. É atendido por linhas de ônibus e estrategicamente próximo às estações de metrô Imbuí e Bonocô.

Desafios

Apesar do lado "perfeitinho", o Costa Azul também convive com problemas urbanos complexos. O coração do bairro é o Parque Costa Azul, uma área de 55 mil m² inaugurada em 1995 sobre as ruínas do antigo Clube Costa Azul. O parque é um centro cultural vital, com anfiteatro e pistas de cooper, sendo palco de importantes eventos, como o festival "Oxe, é Jazz", que o transforma em uma grande sala de concertos a céu aberto, acessível a diversas classes sociais. Contudo, a alegria dos eventos esbarra na sensação de insegurança, o principal motivo que leva moradores e frequentadores antigos a evitarem o Parque Costa Azul.

O bairro já ostentou o título preocupante de "QG do crime" em reportagens passadas, com relatos de roubo de carros (especialmente perto do parque) e assaltos. Ruas como a Monsenhor Gaspar Sadoc são apontadas como especialmente perigosas. A situação se agrava com o crônico atraso na obra de um complexo integrado das polícias Civil e Militar na área dos antigos restaurantes do parque. A construção, prevista inicialmente para outubro de 2022, tem uma nova previsão de entrega pela SSP-BA apenas para o primeiro semestre de 2026. Enquanto isso, a área permanece fechada por tapumes, contribuindo para o clima de insegurança.

Outra ferida é o histórico Rio Camarajipe (ou Camurugipe), o maior rio urbano de Salvador, que margeia o parque e sofre com o despejo irregular de esgoto e lixo, gerando mau cheiro. Além disso, as chuvas revelam fragilidades na infraestrutura, causando alagamentos recorrentes em algumas vias do bairro.

O Costa Azul é um território onde a memória do passado se funde com a vanguarda imobiliária - agora freneticamente construindo prédios de apartamentos no modelo “smart”. Lá, o conforto da infraestrutura é temperado pela luta diária contra a violência e a degradação ambiental.

 Jardim de Alah é a praia mais próxima do Costa Azul por Reprodução/Corre Bahia

É um bairro amado, resiliente, que ensina que até o "perfeitinho" exige trabalho para lidar com tudo que há de "complicado" em viver numa metrópole à beira-mar.

E você? Já deu um rolê no Costa Azul?

Por @flaviaazevedoalmeida