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Maria Raquel Brito
Publicado em 12 de março de 2026 às 05:00
Entre os medicamentos e substâncias apreendidos na Operação Peptídeos nesta quarta-feira (11), uma chama atenção: a retatrutida, cuja comercialização é proibida no Brasil. Trata-se de uma molécula experimental para obesidade e diabetes, ainda em fase de estudos e sem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), da Food and Drug Administration (FDA) ou de qualquer outra agência reguladora. >
“Esse medicamento não foi aprovado para produção, comercialização, venda em nenhum país do mundo. O único laboratório que tem essa formulação é o Lilly. E por conta disso, não pode ser fabricado, vendido e comercializado enquanto não tem a liberação para os órgãos regulatórios do mundo. Nem a Anvisa no Brasil, nem o FDA nos Estados Unidos e nem o EMA [Agência Europeia de Medicamentos]”, explica a médica endocrinologista Dhiãnah Santini, professora do Instituto de Educação Médica (Idomed).>
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A retatrutida é uma medicação chamada triplo agonista, ou seja, capaz de se ligar a três receptores de hormônios. Dois deles são hormônios intestinais – GIP e GLP-1 – e o terceiro é o glucagon.>
O apelo do medicamento está nos números de perda de peso vistos até agora. Num estudo de fase dois em obesidade, a perda média chegou a 24,2% do peso corporal em 48 semanas. Em um resultado preliminar de fase três divulgado em dezembro de 2025 pela farmacêutica Eli Lilly, detentora da patente, a perda chegou a 28,7% em 68 semanas. >
“Para comparação, a semaglutida 2,4 mg (Wegovy) teve 14,9% em 68 semanas, e a tirzepatida 15 mg (Mounjaro/Zepbound) teve 20,9% em 72 semanas”, diz Carolina Castro Porto Silva Janovsky, médica endocrinologista, professora da pós-graduação em Endocrinologia Clínica da EPM/UNIFESP e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).>
Ainda assim, é cedo para dizer definitivamente que a retatrutida seja mais potente que os outros. Isso porque a comparação é indireta: enquanto a nova substância tem estudos de fase dois e resultado preliminar de fase três, a tirzepatida e a semaglutida têm fase três robusta e entre si já houve comparação direta — com vantagem para a tirzepatida (20,2% vs. 13,7% em 72 semanas).>
Dessa forma, uma palavra para definir a retatrutida é “promissora”. Segundo Janovsky, o medicamento pode vir a ser mais eficaz, mas isso ainda precisa ser confirmado em comparações diretas e com revisão por pares.>
O consumo de forma irregular acompanha riscos de duas ordens. A primeira está relacionada ao próprio medicamento e seus efeitos colaterais, que ainda não são definitivos, considerando que segue em fase de testes, ou seja, o perfil de segurança de longo prazo ainda está sendo fechado.>
A segunda ordem, e talvez a mais grave no caso do mercado clandestino, é a falta de controle sanitário. “A Anvisa informou que esses produtos eram de origem desconhecida e sem qualquer garantia sobre conteúdo ou qualidade. A FDA também reforçou que a retatrutida não compõe nenhum medicamento aprovado e não foi considerada segura e eficaz para qualquer condição, alertando contra produtos vendidos fora do circuito regular. Em português claro: a pessoa pode estar aplicando dose errada, produto contaminado, substância trocada, produto não estéril ou até algo que nem seja retatrutida”, afirma Carolina Castro Porto Silva Janovsky.>
Dhiãnah Santini, professora do Idomed, reforça essa ideia. Segundo ela, um medicamento de procedência duvidosa pode ter desde hormônios anabolizantes a anfetamina. >
“O medicamento precisa passar e cumprir todos os processos de regulação, que envolvem os estudos clínicos e a aprovação dessas agências regulatórias para ser comercializado. E antes disso é infringir a lei. Não foi liberado ainda porque a gente tem essa tramitação. É preciso completar os estudos e submeter a essas agências regulatórias para que então elas possam aprovar”, diz.>